7.2.10

O Homem Ordinário


Ele nem se dava conta. Quando refletia, tinha certeza de que era o Homem Extraordinário. Vá lá, não era especialmente belo, rico ou inteligente, mas tinha suas impermanências, suas voluntariedades, suas excentricidades. Não sou de permanecer numa mesma música, ou função, ou amor, por muito tempo, dizia. Como se isso fosse mais importante que toda a aventura de viver.

Ele não fazia idéia. E, na grande falácia que criara, foi vivendo, mudando, saltando de galho em galho. Numa dessas paragens, esbarrou na Mulher Extraordinária. Ela vinha bonita, interessante, charmosíssima e cheia de problemas. Sim, problemas: a Mulher Extraordinária e a Mulher Perfeita, embora muitos não saibam, são pessoas completamente distintas. Como não poderia deixar de ser, o Homem Extraordinário se encantou e quis aquela mulher para ele. Duvidando ser ele quem dizia ser, ela resistiu, contudo ele tanto fez que acabou por convencê-la.

Ele continuava sem saber; ela, aos poucos, ia começando a identificar as incongruências daquela história. Passada a vertigem de primeira hora que sempre causa a paixão, deu-se conta a Mulher Extraordinária de que vinha distribuindo sorrisos burocráticos em reuniões sociais, ouvindo piadas encardidas e atravessando finais de semana tediosos. Tendo absoluta certeza de quem era, só havia uma possível explicação para aquele descompasso: quem estava a seu lado, definitivamente, não era o Homem Extraordinário. Ato contínuo, deu as costas e sumiu. Surpreso, ele achou que quem ia embora era Mais Uma.

Ele segue sem perceber até hoje. Num novo esbarrão da vida, viu-se convicto de ter encontrado, finalmente, a Mulher Extraordinária. São medianamente felizes, na medida medíocre de sua corriqueira rotina, com doses controladas de sobressalto e contratempo. Talvez, ao encontrar a morte na velhice, ele perceba que, sendo por vocação o Homem Ordinário, encontrou aconchego nos braços da Mulher Ordinária. Mas o mais provável é que morra na ignorância.

28.1.10

De obsessão em obsessão

O título acima foi tomado de assalto de um texto que li num livro didático quando ainda era bem criança. Ele falava sobre a obsessão que ligava o narrador-personagem à palavra “obsessão”. Toda vez que ia escrevê-la, ele consultava o dicionário para conferir se estava empregando a grafia correta. Quando precisava usá-la assim, no seco, sem ter como confirmar (ah, aquelas trevas pré-internet...), simplesmente pirava. E, a partir daí, ele ia falando sobre pequenas outras obsessões suas. Eu devia ter uns sete ou oito anos, e adorei o texto a ponto de relê-lo um punhado de vezes. Identificação total.

E por que me lembrei disso? Porque hoje fui dar com os costados num consultório psiquiátrico, coisa que só acontecera uma única vez na minha vida: aquela esofagite erosiva pós-defesa-do-mestrado-durante-desemprego-e-pré-primeira-incursão-no-velho-mundo começava na cabeça e tinha que terminar por lá. Mas hoje a visita tinha outra razão, bem menos dolorosa. Precisava de um laudo de sanidade mental para fins meramente profissionais. Como não conhecia o médico, fiquei pensando em como seria... e posso dizer sem pestanejar que a realidade correspondeu aos mais estranhos delírios de contista - aqueles que vinha tendo na longa viagem de taxi entre o Maracanã e Copacabana.

O médico, figura bonachona e estrábica, começa a consulta atribuindo uma imensa importância àquele bendito atestado. Ok, não discordo, é importante mesmo, mas tanto a ponto de precisar ser complementado por um eletroencefalograma? Ta, ele é o médico e eu não sei de nada. Sou informada de que, se houver alteração no meu eletro, estou re-pro-va-da. Assimilo bem... é a vida. Depois, me pergunta quanto eu ganho. Respondo sem resistir: servidor público tem isonomia mesmo, meus rendimentos são um livro aberto. Ele diz que a pergunta faz parte do “teste”, e se eu questionasse a razão dele querer saber, demonstraria paranóia. Estaria re-pro-va-da.

Pausa dramática.

Neste momento, eu poderia escolher entre morrer de medo daquele homem ou achar toda a consulta meio boba, meio chata. Como há mais um monte de psiquiatras no livro do meu plano de saúde prontos a me considerarem uma pessoa “normal”, resolvi que seria só educada e honesta. Se ele me diagnosticasse como louca, buscaria uma segunda opinião.

E continuam as perguntas. Em algum momento eu cito o Itamaraty, ele fala em “viados” - segunda menção do gênero, após a androginia do Caetano Veloso, que “ficou melhor depois que virou homem”. Eu me sinto pessoalmente insultada e julgo muito, muito mesmo, essa chulice machista. Depois de um cerca-lourenço que me deixou tonta - “Pra psiquiatria ser homossexual não é problema, o problema é não lidar bem com a própria homossexualidade”, blábláblá - pergunta de supetão qual é a minha orientação sexual. Eu digo que sou heterossexual. Fico feliz pelo fato de sentir atração exclusivamente por homens; fosse eu gostar só ou também de mulheres e aquela lenga-lenga duraria mais uns 20 minutos.

Enveredando por caminhos que muito longe passavam do que imaginava de uma consulta como essa, chegamos ao fim. Nenhuma pergunta sobre eventos de transtorno psiquiátrico em minha vida, sintomas que possa ter tido ou medicamentos que tenha usado. No exame clínico, fui a-pro-va-da. O laudo final vem depois do eletro, no qual ainda posso ser re-pro-va-da.

Saí de lá com a palavra engodo soando nos tímpanos. Quanta tolice! Mal sabe ele que, embora eu tenha assentido com a cabeça à sua grosseria, achava um barato muito charmoso aquela fase andrógina do Caetano. Vivendo imerso na prepotência de quem não permite ao outro concluir frases, também não vai saber nunca que um sorriso polido pode esconder mil críticas. E, na obsessão por saber se sou paranóica, lésbica ou se consigo cumprir ordens, não conseguiu vislumbrar meu real defeitinho: a obsessão por beleza, simetria e perfeição. Nesse teste, ele não passou.

18.1.10

Daquele jeito

Olha, não é pra me gabar (até porque não ando ganhando medalha de Honra ao Mérito por isso), mas to pra ver alguém com a minha vocação pra driblar a vida. No último mês, virei quase um Robinho de cama e mesa. Um Garrincha de repartição. Um Ronaldinho Gaúcho das paixõezinhas-e-amores monumentais. Ah, viver cansa, às vezes.

Depois da última cacetada (hoje de manhã, par hasard), resolvi que tudo vai melhorar. E, do jeito que eu sou turrona, duvido que isso não aconteça. Quem viver, verá.