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24.12.10

Achados e perdidos

Há tempos que perdi mundo afora um par de belas quimeras. Eram lindas ilusões em feitio de flor. Vez por outra me lembrava delas e, perdida em pensamentos, me perguntava que fim teriam levado. Hoje, flanando numa assaz caliente noite bonaerense, penso que casualmente as encontrei, embora - mea culpa - nunca tenha feito por onde reavê-las. Até palpitou meu coração - ora, ora, se não são elas! - contudo não as tomei de volta. Na pequena valise que trouxe neste recesso natalino, elas pesariam como chumbo. Além disso, hoje moro num apartamento bem menor, modos que as belas quimeras ocupariam demasiado espaço, atravancando a sala e a vida. Assim sendo, no frescor sincero do ar condicionado de hotel, fiz-lhes esse continho chiquito e desajeitado, em honra aos velhos tempos, e as deixo viver em paz, para que em paz também me deixem viver.

18.7.10

Pelo direito de ser só


Não, nenhuma síndrome de Greta Garbo - isto é um manifesto. Simples: eu tenho e quero exercer o direito de ser só. Por que viajo/vou ao cinema/teatro/almoço/janto/pego uma praiana sozinha? Por que não chamo alguém? Por que?

PORQUE EU NÃO QUERO!

Porque eu também viajo/vou ao cinema/teatro/almoço/janto/pego uma praiana com os amigos, mas isso não me impede de fazer todas essas coisas sozinha - com o mesmo prazer. Não é uma questão de não gostar de companhia ou de ser uma misantropa encruada. Eu adoro estar com pessoas! É delicioso jogar conversa fora, rir junto, lembrar histórias, além de ter - e ser - alguém com quem se pode contar. Valorizo a amizade como um presente divino e cultivo com carinho as minhas relações; tenho colegas, amigos e até mesmo irmãos que escolhi vida afora. Confesso que passo tempos sem falar com alguns, mas todos - sem exceção - sabem que estou sempre disponível, e que prezo sobremaneira minhas relações. É que não acho necessário andar grudada nas pessoas, ou choramingando atenção, para que elas me tenham em alta conta. Certa ou errada, o fato é que sou compreendida por quem me importa, ponto final, acabou.

Aos eternos carentes, lamento: ninguém vai me censurar, ainda que com um olhar de sincera preocupação, por viajar sozinha nas minhas férias ou nos feriados prolongados. Não me pode ser negado o prazer de eleger um destino, descolar um vôo barato, reservar um hotel e zarpar. Sempre fiz isso. De uma vez por todas: se há quem me faça companhia, eu vou acompanhada; se não há, eu vou só sem Anália, mas eu vou, já dizia Caymmi.

Sozinhos somos todos, por definição. Se você ainda não se convenceu disso, é melhor ir começando a se acostumar.

5.6.10

Areal, 26 de maio de 2010

Lá fora, uma noite das mais belas. As poucas luzes do interior fazem com que o céu pareça mais negro, e a lua, mais clara. Ganas de desligar os faróis e vir assim, estrada afora, guiada pela luz da lua.
Sinto-me estranhamente feliz. Tantos desencontros nos últimos meses deveriam ter me cansado mais, mas apesar da provisoriedade da vida de hotel de segunda a sexta e da casa dos pais nos finais de semana, não consigo me chatear verdadeiramente. Poderia atribuir isso a toda tranquilidade que agora me cerca no trabalho e na vida, mas não é isso - ou, pelo menos, não apenas. É como se algo mais profundo e denso houvesse se mudado de dentro de mim. Não, não me tornei indiferente ao futuro, imagine! Ainda quero muitas coisas, e coisas diferentes. Só que agora tenho calma.
Viverei uma vida e ainda me surpreenderei com a minha capacidade de assimilação de mudanças, por mais radicais que elas sejam. O caminho por onde vim andando, por vezes ansiosa, desde criança, me fez assim. Agora, esqueço de carregar o celular, de responder emails, de ver notícias no jornal. A vida social está zerada e passo horas e horas comigo. Sei que tudo isso não dura pra sempre, e é por isso que não sou capaz de me perturbar. Melhor degustar a calmaria e preparar o espírito pra quando for necessário retomar a carga. A inquietação é parte de mim, ainda que por vezes adormecida.
Areal continua diminuta como sempre. Voltando do trabalho, paro o carro em frente à padaria da rua principal, hoje urbanizada, outrora de terra batida. Ali, quando eu era bem pequena, tive a visão de um touro furioso correndo atrás de mim e das primas da roça, num dia de casamento. Jamais passaria por minha cabeça que, um dia, aquela cidadezinha me acolheria tão gostosamente.
Sei que, nos próximos meses, terei decisões importantes a tomar. É preciso voltar a pensar na “grande” vida, e correr atrás, e fazer planos, nem que seja pra eles se desfazerem no ar enquanto outra coisa diferente nasce, menos ou mais pretensiosa, em seu lugar. Por enquanto, deixo que as coisas sigam seu rumo manso, mansinho. Pausa e fôlego.