27.4.09

Além de Paris, em abril


Como sabe quem me conhece mais de perto, vivi no Rio até os 7 anos, quando me mudei para só voltar a morar aqui quando cheguei à universidade. Durante a longa ausência, guardava pela cidade um misto de carinho e medo. Nas minhas primeiras férias de meio de ano desde a mudança pra Maceió, arrombaram o carro do meu tio na Tijuca e levaram toda a minha bagagem. Para quem morava num lugar conhecido como “Paraíso das Águas”, minha reação foi típica: quis pegar o primeiro avião e voltar pra Praia da Jatiúca. Desfaçatez do destino, essa semana a capital alagoana foi cenário de um crime semelhante ao que vitimou fatalmente o menino João Hélio no subúrbio carioca. Vinte anos, meus caros, não são vinte dias.
Quando finalmente tornei a casa, precisei redescobrir o Rio. Queria sentir a cidade de dentro pra fora, e não de fora pra dentro. O idílio dos exilados não é bom conselheiro; vela a visão tanto quanto o preconceito dos xenófobos. E foi enredada pela liberdade da vida universitária que vivi meu novo-primeiro outono carioca, um outono assaz atípico, cheio de nuvens no céu, novos amigos e longas caminhadas entre os campi da UFF. Se houve uma nesga de céu azul em 1999, não vi.
Dez outonos depois, já tenho minha história particular da estação em que o Rio se torna uma cidade ainda mais bela do que já é o ano inteiro. O outono carioca, forasteiros, é algo. Ainda hoje, a sua chegada é quase sempre surpreendente pra mim. Após mais uma madrugada abafada em meio aos temporais assombrosos de março, o dia amanhece lindo e civilizadamente fresco. Você se dá conta de que pode tomar banho e se vestir para ir trabalhar com o ar condicionado desligado, o que é um luxo para quem acaba de sair do verão austral. O clima agradável e a irradiação solar suave permitem que se escolha o figurino que quiser, e aquele vestido de laise amarela pula da gaveta para as suas mãos. Os cabelos das mulheres podem ficar soltos (o suor não vai escorrer pescoço abaixo) e os homens parecem sensivelmente mais belos e leves no Centro nervoso da cidade: envergar um terno, com essa brisa, é outra história. Até o secular mau cheiro da Rua da Quitanda dá uma colher de chá aos nossos narizes.
Em meio a tanta beleza, o outono carioca deve ser uma época propícia ao amor. Cantou o gorducho Ed Motta, por volta de 2001: “Há um lugar para ser feliz/ Além de abril em Paris/ Outono no Rio”. Sobre a primavera parisiense, não tenho opinião a emitir - conheci a cidade num inverno de ventos cortantes que me causaram um baita crise de sinusite - mas esses três versos sempre provocaram em mim uma extrema simpatia. Meus amores de primavera foram paixões de inverno que, um dia, nasceram como despretensiosas inquietações de outono. Tempo de semeadura, nossa estação-vedete.
Neste momento, cai uma chuvinha lá fora. Apesar disso, tenho certeza de que amanhã de manhã, quando eu dobrar a esquina da praia, um pano de fundo incrivelmente azul estará emoldurando o Pão de Açúcar. Não há dia que possa começar mal, quando se vive numa cidade em feitio de espetáculo...

13.4.09

Brilho Eterno


Hoje vi na TV que cientistas descobriram um dos buracos negros da psique humana. Sim: é possível apagar memórias do nosso cérebro através de drogas, estímulos ou algo do gênero. Aquele namorado complicado, os anos de bullying no colégio, o chefe que te assediou moralmente... tudo deletado pra sempre do seu HD, sem deixar vestígios. O desagradável vício de fumar ou beber? Nunca mais. Adeus, lembranças amargas e hábitos nefastos.
Curioso é que essa notícia me pegou num dia especialmente nostálgico. Na casa do meus pais para o feriado da Páscoa, reencontrei numa bolsa de viagem embolorada as fotos de toda a minha vida - ou pelo menos de uma parte considerável dela. Flavia bebê de cabelos clarinhos com vovô e vovó; Flavia no apartamento de Laranjeiras aprendendo a dançar com o Dindo; Flavia banguela na festa de fim de ano da escola; Flavia com os primos brincando no chão da casa da tia-avó; Flavia com papai e mamãe na Cidade da Criança... E com os amigos em Maceió, em Teresópolis, no Rio, em todo o canto. Fato inconteste é que quase todas essas lembranças são muito felizes e luminosas, contudo salpicadas de tristezas que, lá e cá, tornam a vida agridoce - requinte de paladar que, cá pra nós, diz muito mais à minha língua do que o que é excessivamente açucarado.
Evidente que há coisas pelas quais eu preferia não ter passado. Já segurei barras pesadas demais pros meus 28 anos... fatos terríveis, dolorosos ou difíceis mas que, ao fim e ao cabo, fazem parte da minha história de uma forma indissociável. Fico imaginando se toda essa tecnologia da neurociência estivesse ao meu alcance amanhã de manhã quando eu acordasse. Algo como um vendedor no melhor estilo “Avon chama” batendo à porta do meu apartamento, portando uma engenhoca capaz de apagar lembranças ruins por preços módicos. A senhora escolhe, eu apago. E aí, como escolher? Aliás... devo escolher? O que sobraria de mim, depois de eliminar as experiências negativas?
Apesar dos tropeções (meus e dos outros) que bagunçaram meu coreto tantas vezes, acho que ser quem eu sou ainda me dá um profundo prazer. Sabe aquele verso do Caetano, “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”? Pois é... sou tão arraigada às minhas dores e delícias que jamais saberia viver sem elas. Há os que chamam isso de autoestima elevada. Melhor assim.

15.3.09

Três casamentos e um pouco de audácia



Hoje de manhã, terminei uma longa e onerosa temporada de cerimônias de casamento. É, meus caros amigos: aproximar-se dos 30 anos tem dessas coisas. As amigas da sua idade estão se casando - é irremediável. Daí a isso te levar a crer que deveria considerar seriamente a possibilidade é um pulo. Impossível olhar toda aquela felicidade transbordando e não pensar nem por um minutinho que gostaria de estar lá, de véu, grinalda, buquê e vestido branco, fazendo juras de amor eterno perante a lei dos homens e a lei de Deus.


O casamento de ontem, devo esclarecer, foi o mais significativo dos três que assisti nos últimos meses. A noiva era minha prima Camila, pessoa muito amada e cara pra mim. Nossa primeira foto juntas, como gostamos de brincar, foi ainda dentro dos barrigões de nossas mães, um apontando para o outro, num quase desafio de "quem tem o útero mais dilatado". Nasci em agosto; Camila, em outubro. Crescemos e nos tornamos duas pessoas muito diferentes, e justamente por isso sempre tive a certeza claríssima de que ela se casaria antes de mim. A grande questão, portanto, era: como eu vou me sentir, solteira comme il fault, no casamento da Mila? Serei contaminada a sério pelas susceptibilidades suburbanas da minha família a ponto de me considerar a "prima encalhada"? Vou me sentir uma velha solteirona quando não conseguir segurar as lágrimas? Oh, vida.


Madrinha que era, escolhi um belíssimo vestido e caprichei no cabelo e na maquiagem. Investimento feito com carinho e prazer; Camila merecia um belo altar. Cheguei à igreja sob uma chuva chata e logo engatei num papo animado com as outras madrinhas, amigas da minha prima que, durante o pré-casamento, acabaram se tornando minhas amigas também. De tempos em tempos, pedia a Tia Rosane pra me dizer a localização do seu filho, meu primo e par Daniel, atrasadésimo. Papo vai, igreja enchendo, papo vem, Daniel chega, olho pra entrada do jardim e vejo a noiva e o pai. Showtime.


Com o braço engastado ao do Dani, a ficha finalmente caiu. Carambola de Maracatu Atômico! Conversava com meu primo sobre as gracinhas do Mateus, filho dele; reclamava do estresse contínuo do meu trabalho... e a Camila, bonitona e grande, Arquiteta e Urbanista (como diz a tattoo que leva no pé), com o Tio Ronaldo, vindo logo atrás de nós. Somos gente adulta, por mais incrível que possa parecer. Uau.


Entrei na igreja explodindo de felicidade, agradeci ao destino pela Mila ter encontrado alguém tão bacana quanto o Paulo pra compartilhar a vida e simplesmente me desmanchei quando ela parou, no meio do caminho para o altar, para beijar e abraçar a minha avó, tão velhinha e feliz por ver a sobrinha-neta se casando. Família é ruim, mas é bom demais. Após a saída, os padrinhos formaram um corredor polonês para jogar arroz sobre os noivos. Olhei pra empolgação do meu primo planejando tacar um punhadinho do cereal dentro da boca da Camila e reconheci o garoto espírito de porco e carinhoso que conheço desde que nasci. Algumas coisas nunca mudam.


Durante a festa, ao pedir ao garçon que servisse água à Tia Eliete, ele me perguntou qual das senhoras do grupinho que eu havia indicado era a minha tia. Ri muito e respondi que tias eram todas, mas a de preto é que tinha sede. No meio de tantas pessoas amadas, sem uma gota de álcool no sangue e recebendo muitos elogios à minha toilette, eu me senti abusadamente feliz e vaidosa. Sabem do que mais? Meninas solteiras e bem resolvidas são admiradas, mesmo quando se aproximam dos 30, e tias, dos 40 aos 80, não te cobram casamento; elas querem é te ver feliz. Quando essa felicidade transborda de você pelo simples prazer de ser quem é e estar exatamente onde gostaria de estar, ninguém no ambiente fica imune a ela. Ainda bem.

4.2.09

Volare

Queimada de sol e contente. Olhando o mundo com um arzinho de flerte. Revivendo romance com o Rio.

E sonhando como será o passo número 2 dessa valsa da vida adulta...

25.1.09

Pílulas IV

O que eu quereria saber, caso fosse possível, é qual a parte que realmente me cabe nesse latifúndio...

18.1.09

Uma pequena porção de nada

Já corri muito atrás de ir embora definitivamente do Rio de Janeiro.

Como parte desse desejo tão antigo quanto a minha volta pra cá, na época da faculdade, fiz inúmeros concursos pra outros estados, tentei bolsas de estudo e avaliei propostas de emprego. Ao fim e ao cabo, nenhuma dessas tentativas resultou numa mudança efetiva. Quando muito geraram em mim uma positiva ansiedade, mas ficaram nisso.

Hoje, enquanto andava aqui pelo Largo do Machado, aporrinhada com a minha gripe e pensando se deveria ou não ver Vicky Cristina Barcelona na sessão das 4, me dei conta de que viver no Rio é bom, muito bom. Ah, é melhor ainda se você, assim como eu, prezar pelo conforto e não se importar em manter o ar condicionado ligado durante os dias mais quentes. Esse clima de balneário, principalmente no verão, deixa a cidade especialmente risonha. Gostoso entrar na Galeria São Luiz e almoçar um temaki fresquinho como o tempo pede, depois assistir a um filme e finalmente vir pra casa encontrar um bom romance na estante. Sim: existe felicidade nessa cidadezinha ao Sul do Equador.

O caso é que felicidade existe em outros cantos também. E uma felicidade sem as cobranças de memórias construídas ao longo dos anos, de lugares que remetem a pessoas que por vezes adoraríamos esquecer de vez. Embora eu tenha passado grande parte da minha vida fora do Rio, aqui vivem as mais fortes lembranças da tríade amigos-amores-família. Nômade que sou, essa avalanche de referências me sufoca a ponto de fazer sofrer. Quase impossível circular pela cidade sem lembrar de um bom momento que não volta mais, de alguém querido que morreu, de tudo de bom e de ruim que vivi aqui.

Se você leu isso e pensou que é assim mesmo, que o negócio é tocar pra frente, respondo que não sei. Com todo o carinho que tenho pelo estonteante cenário carioca, pra mim ele se parece com uma folha de papel de carta bem decorada, mas desgastada por contínuos esfregões de borracha. Uma hora a folha, de tão fininha, se rasga, e não há mais como remendá-la. É hora de fazer um novo começo, sem vícios, num papel novinho.

Sei que para muitos meu raciocínio deve se parecer com fuga da realidade, um ultraromantismo tolo. Talvez seja mesmo. Mas prefiro cultivar essa ilusão boa a achar que, onde quer que eu vá, carregarei um fardo grande e pesado de passados. Ah, e talvez nem seja tão ilusório pensar assim. Qual de nós não voltou melhor de uma viagem feita no momento em que a vida parecia mais complicada? Quem nunca ouviu uma história sobre pessoas que conseguiram se afastar de vez de parentes indesejáveis quando resolveram mudar de cidade?

Não sei até quando permanecerei no Rio, mas sei que hoje, mais do que nunca, ficar ou sair dependerá integralmente do meu empenho pessoal, com uma pequena ajudinha do acaso. O destino - sempre ele - tem me apontado, com pequenos incidentes, novos caminhos. O melhor desse momento da minha vida, sem dúvida, é a tranquilidade que adquiri pra esperar o tempo certo de semear e colher. Mas isso já é tema pra um outro post.

15.10.08

Terríveis tentações

Não, não devo olhar pra trás, muito menos lá atrás, quando eu era outra... tão outra que nem me reconheço. "Em que espelho ficou perdida a minha face?", disse Cecília Meireles. Não me interessa; não vale a pena encontrá-la.

Que eu não faça isso de novo, sob pena de virar estátua de sal.

E que os anjos continuem velando por mim.

10.12.07

Pra não chorar...

Era antevéspera do meu aniversário.

Havia menos de 2 anos que eu tinha voltado pro Rio com a minha família, depois de quatro anos e meio entre Maceió e Curitiba. A temporada fora me proporcionou uma infância saudável, sem preocupações com violência urbana, e a oportunidade de viver coisas tão simples e deliciosas como pular amarelinha e elástico na rua, andar descalça e correr de bicicleta.

Mas eu tinha voltado pro Rio, ou melhor, pra Teresópolis, porque meus pais preferiram enfrentar 200 quilômetros de estrada por dia a me expor ao caos da segurança pública do Rio de Janeiro. Não conseguiam me imaginar pegando ônibus, tendo tênis roubado, essas coisas. Expostos a isso sempre estiveram meus parentes maternos, habitantes irremediáveis da Penha, Méier e Bonsucesso. Minha mãe foi criada num subúrbio carioca quase idílico; minha avó e suas irmãs mais novas, adolescentes bonitas e bem vestidas, faziam o "footing" nas tardes de domingo na Praça das Nações. Assim conheceram seus futuros maridos.

Algumas tragédias, infelizmente, são anunciadas. Na noite de 25 de agosto de 1994, o telefone tocou. Andréa, minha prima e afilhada da minha mãe, tinha sido novamente assaltada enquanto dirigia. Para nós, era algo quase corriqueiro. Já tínhamos perdido a conta dos roubos de carro a mão armada pelos quais a Andréa já tinha passado, e uma vez, dois anos antes, havia sido até pior: após tomar uma "fechada" na Av. Brasil, quando voltava da faculdade pra casa, os bandidos a colocaram no banco de trás e correram todo o subúrbio fazendo assaltos. Lembro dela contando a história pra minha mãe no telefone, e dizendo: "Eu não agüento mais viver aqui, quando eu me formar quero sair do Rio, quem sabe ir pra Maceió... posso morar com você, Dinda?"

Não deu tempo. O último assalto pegou minha prima no 5º período da faculdade de Administração. Foi à concessionária pegar o carro novo, um Prêmio novinho em folha, e ligou pra avó pedindo que não contasse a ninguém, porque meus tios pensavam que ela só o buscaria no sábado, e queria fazer surpresa. No caminho, passaria na faculdade, a Estácio de Sá do Rio Comprido, pra entregar um trabalho. Estava parada no sinal da Rua do Bispo com a Barão de Itapagipe quando alguém bateu com o cano de uma arma no vidro do ser lado. Assustada, tirou o pé da embreagem. O carro pulou, o assaltante pensou que ela fosse fugir e atirou. Por milímetros, a medula foi atingida.

Passei meu aniversário no hospital, junto com toda a família, mobilizada em torno daquele drama. Doze dias em coma, e a morte. Andréa tinha 23 anos, era linda, feliz e fazia muitos planos de futuro. Acabou. O enterro foi no dia do aniversário da minha mãe. Ela era apaixonada pela prima e afilhada, um amor tão grande que às vezes até me dava ciúmes. Arrisco dizer que, depois daquele dia, nunca mais foi a mesma.

Por uma infelicidade extrema, conheço o que a família do menino Hugo deve estar sentindo agora. Uma criança adorável, com a vida ceifada tão precocemente... não sei mais o que dizer.

E a cidade é linda. Talvez eu seja covarde e devesse lutar mais, mas cansei desse lugar. Mesmo. Quero ir embora, criar os filhos que terei sem medo de beijar-lhes a têmpera de manhã e vê-los estirados em alguma esquina à tarde. Não há quem mereça passar pelo que os meus tios e os pais do Hugo passaram.

21.11.07

Comme toujours


Parce que c'est très dificille de comprendre que, parfois, personnes ont le désir de voir dans l'âme des autres ses imperfections.

Mais je sais qui je suis: la même jolie elevée pour être une femme sensible, intelligente, belle, libre, singulaire, et aussi pleine d'amour pour donner.

Drôle.

Regardez ton interieur par deux minutes. Ta nature c'est l'opposé de ma nature. Tu n'est pas un homme seul, mais je suis comme ça par essence. Tandis que je suis unique, je peux t'aimer.

Comme a dit, certaine fois, le poète, "N'essaye pas de comprendre; vivre dépasse la compréhension". Si tu ne saches pas cette lesson, la plus importante, c'est à dire que tu n'as pas vécu.

Lá, au débout de mon chemin, l'insatisfaction, la tristesse, tout ça se deviendra une pâle souvenir, ainsi que ton visage. Mais je pourrai regarder mes jours de jeunesse et voir les plus belles couleurs du bonheur...

27.10.07

Musa


Quem estava em casa nessa sexta-feira à noite teve a oportunidade de ver um requinte de delicadeza na tela da Globo: o especial "Por toda a minha vida" que homenageou Nara Leão. Após passar mais da metade da minha vida sonhando com o dia em que Nara receberia uma homenagem à altura de sua importância para a cultura brasileira, tive a alegria e a emoção de ver minha pequenina TV, que ganhei quando tinha 5 anos e que tantas vezes me transmitiu fragmentos de Nara - pedacinhos de luz e brilho que clarearam minha adolescência -, mostrá-la por inteiro, sem enganos ou informações confusas. Tiremos, pois, o chapéu pra emissora dos Marinho: numa tacada só, presentearam nossos olhos e ouvidos com imagens raras do Show Opinião, o áudio da primeira apresentação pública de Nara - a voz emocionante, trêmula e delicada, de uma menina de 17 anos-, e as entrevistas em que a sua simplicidade, coerência e honestidade para com o mundo e consigo mesma transpareceram de modo incrivelmente claro.

Sempre tive uma profunda admiração por Nara Leão. Desde criança, sua imagem inspirou em mim algo muito forte. Eu adorava ouvir Elis, mas Nara tinha os meus cabelos, um jeito moreno, sem laquês, brilhos e maquiagem de palco; era uma pessoa adulta, assim como eu era uma pessoa menina. Que graça: antes da voz, da história de vida, de tudo, veio essa indentificação, que nunca consegui criar com qualquer outro artista. Depois, inoculado em mim o vírus da curiosidade, escrafunchei e entendi que aquela terrenidade de Nara era fruto da consciência de que ser artista não é diferente de ser médica ou engenheira: como todo profissional, o músico deve ter responsabilidade, vocação, sensiblidade e competência. Pra que afetações e 1000 toalhas brancas no camarim?

Essa postura de Nara diante da carreira fez com que fosse qualificada como "anti-artista". Sempre ouço das pessoas que com ela conviveram a observação de que era absurdamente simples como mãe, dona de casa e profissional. Resistia ao assédio da mídia e das pessoas não por arrogância ou complexo de superioridade; muito pelo contrário, não se via como alguém "especial" ou "diferente" só pelo fato de ser cantora. Ironicamente, essa visão de Nara, somada à sua acuidade para descobrir novos talentos, dar voz aos esquecidos e fazer seu trabalho da forma mais bela e digna possível, tornaram-na um mito. Passados quase 20 anos de sua morte, há um séquito de fãs apaixonados, que criam e movimentam comunidades virtuais, compram seus álbuns e DVDs, dividem gostos e exultam sua personalidade. A mulher que fundou a MPB, bateu de frente com os militares e lutou bravamente pela vida por 10 anos está viva por todos os cantos. Como disse Ruy Castro no dia de sua morte, "Não chorem; ouçam seus discos."

Ainda estou muito tocada pelo especial de ontem, mas há algo de bem egoísta nisso. Maior do que a alegria e a emoção de presenciar toda a ode, sinto-me profundamente feliz por ter escolhido Nara pra minha vida. Se me identifico com ela, deve haver algo de muito bom em mim. Não tenho mais 14 anos de idade, meu violão há muito tempo repousa num canto da casa de Teresópolis, mas... quanto orgulho!

20.7.07

737-100


Boeing 737-100, o primeiro da série, apelidado carinhosamente de "Baby Boeing" pelos que o consideravam uma miniatura do portentoso B 707.
Tenho carinho por esse modelo. Era ele, pintado nas cores da Varig, que me trazia para o carinho de tios, primos e avó, aqui no Rio, quando eu morava láááá em Maceió. Vinha sentada na 1A, com aquela bolsinha plástica de menor desacompanhado no pescoço, trazendo minha certidão de nascimento e a autorização do Juizado de Menores do Aeroporto Campo dos Palmares - MCZ, constando o nome dos responsáveis a quem eu poderia se entregue no portão de desembarque. Lembro que o vôo saía na hora do almoço, e sempre tinha aquele medalhão com batata noisette no serviço de bordo. Recebia a revista do Variguinho, conversava com os comissários, fazia amizade com algum adulto que vinha do meu lado. De vez em quando tomava um pequeno banho de Coca-Cola, consequência das turbulências típicas do horário, da estação do ano e da região... certa vez, numa descida muito rápida no Galeão, lembro da comissária, elegantíssima no seu uniforme azul-marinho denunciando uma discreta barriguinha de gravidez, que do seu assento fazia movimentos de mascar chiclete para aliviar a pressão nos ouvidos, de forma que eu e outra menina do meu lado repetíssemos. Tudo muito divertido.
Mas não é só disso que eu me lembro.
Havia, também, as cores das poltronas - amarelo, laranja e verde - e seus relevos que remetiam a plantas (isso eu achava meio feinho - preferia a Vasp e a Transbrasil!), as instruções de segurança várias vezes vistas, além de outras reminiscências: a primeira vez num wide-body, logo um Jumbo da Pan-Am, enorme, majestoso, e que parecia ainda maior perante os olhos de uma menina de 10 anos; os queijinhos tipo Polenguinho, que então eram raros nos supermercados brasileiros, mas estavam sempre no catering dos aviões; o cheiro típico de combustível; as curvas suaves descritas no ar; o calor extremo que fazia - e faz - nos túneis que ligam o avião ao interior do Galeão; os pequenos aeroportos do Nordeste; as voltas infindáveis sobre Maceió, toda vez que não tinha "teto" pra pousar; o piti de dois comissários da Transbrasil, me tirando da saída de emergência, num vôo mais... emocionante. Curioso como tudo era bom, tudo terminava bem. Voar era sinônimo de alegria, uma pontinha de orgulho de cruzar os céus do Brasil sempre.
Infelizmente, voar pra mim há muito deixou de ser uma felicidade tão grande. Ainda sou encantada por aviões, mas meu conforto começou a esmaecer com a primeira grande tragédia que acompanhei: o Fokker 100 da TAM se espatifando nas redondezas de Congonhas, em 1996. Dois anos depois, um vôo traumático me levou a ter medo, e também muita raiva. Raiva! Como alguém que já viajara tanto, que sabia o quanto os aviões eram seguros, poderia ter medo de voar? Não me conformava com isso! Teimosa que sou, continuei voando, voando e voando... até arrefecer os sintomas do pânico.
Hoje, ao medo somou-se a tristeza de sua justificação. Em menos de 1 ano, dois acidentes brutais, de alto calado, ceifaram a vida de mais de 300 brasileiros. Não sou especialista, mas não precisa ser mais que esperto pra saber que há algo de muito errado acontecendo. Na sexta-feira de Carnaval, passei quase 2 horas num finger do Galeão, esperando autorização para decolar num A-330 da TAP... só percebi o quanto havia atrasado já no ar - o papo com os meus pais me distraiu. Logo, só posso concluir que a ingerência e a irresponsabilidade com vidas tem que parar, e não por mim, que vôo - e continuarei voando - vez por outra, mas para os milhares que utilizam aviões com frequência. Tenho pessoas queridas nesse grupo, assim como outras, aeronautas, que passam grande parte do seu tempo em aviões. Chega.
Desculpem o longo desabafo, mas não agüento mais ver tudo isso acontecendo à revelia.

13.6.07

Em que espelho...

Hoje cheguei a casa e me olhei. Constatei a suspeita que tinha: havia me feito triste. Isso, porém, não assustou. O descalabro, esse sim, é que eu estava feia. Feia! Tão feia quanto nunca estive. E velha... Antes a tristeza me dava outros ares. Até me achava mais bela com as pálpebras pesando, choro sentido. Nada disso existe mais. Só dor, no corpo e na alma. Todas as dores, por todos os motivos, de todos os lados. São Sebastião flexado.

8.6.07

Lições de feriado

A casa está de cabeça pra baixo desde quarta-feira. Essa falta de geladeira, que deve ser sanada no domingo, abalou o equilíbrio de meu lar. Eita.

Esses feriados malucos me confundem toda. Fico lá na casa do namorado, daí não sei mais quando trocar a roupa de cama e as toalhas, a que horas estudar, tudo o mais. Mas tem sempre bom saldo, depois de um magistral balanço com a Amiga (assim, com letra maiúscula) ao telefone.

É assim que a gente aprende que as nossas pernas, braços e cérebros estão se movendo mais, e com mais perspectiva de velocidade, do que por vezes pensamos, por exemplo. E que eu me convenço de que sou um poço inesgotável de paciência com gente complicada, e por vezes aturo coisas que não deveria pelo simples prazer da boa convivência. Impressionante como sou ímã de situações fora de prumo. Idiota, até. Tenho o péssimo hábito de pensar que a boa vontade e a ausência de intenção de erro devem eximir as pessoas de ouvirem umas verdades, ou simplesmente serem criticadas. Caramba, como cansa ser "legal"! Há dias em que eu só queria ser escrota, muito escrota.

Noves fora, queria sempre agradecer aos meus pais pelo modo como me criaram. Apesar dos enganos e escorregões, existentes em qualquer educação, graças a eles me tornei uma pessoa livre, feliz, de bem com meu corpo, minha cabeça e com quem eu sou. Problemas todo mundo tem, mas estou longe das tristezas profundas travestidas de algo com outro nome que vejo por aí.

6.6.07

Alguma razão pra bom humor?

A geladeira nova que chegou anteontem não funcionou nem 24 horas, minha comida está na casa da minha tia, a minha cirurgia dói de manhã, dóóói, e incomoda muito, engordei dois quilos, não consigo estudar, odeio ficar sentada nessa bóia, ninguém entende o que eu falo no balcão da padaria, tá um frio de rachar o quengo como nunca vi nessa cidade, quero sair de casa pra trabalhar e só voltar à noite, como nos velhos e felizes tempos, tenho preguiça de colocar músicas no MP3, de tomar banho, de lavar o cabelo, de viver. Quero dinheiro. E tem roupa pra recolher do varal. E passar.

Se alguém tiver um bom motivo pro meu humor melhorar, avise-me. Tá fueda.

31.5.07

Amélia

Mas sabe qual é o sonho da minha vida, mesmo? Maior que todas as vontades profissionais, as ambições intelectuais, tudo?

Formar uma família bonita, zelar pelos filhos e pelo marido, alimentá-los, cuidar das roupas, perfumar a casa, enfim, ser uma feliz dona de casa.

Que a minha mãe não leia isso.

24.4.07

Au début

Hoje é terça-feira, ontem foi feriado e minhas pequenas primas debutaram na sexta.

Não vou dizer que me sinto velha e horrorosa por isso. Seria hipocrisia pura da minha parte. A verdade é que, apesar das pancadas que já levei, hoje sou muito mais jovem e bonita do que era com 15 anos. Um viva aos milagres do tempo e da indústria cosmética.

Mas, oh, não me canso de reclamar: a fase é difícil. Por mais que tenha algumas novas diretrizes bem traçadas para mudar o rumo do que não vinha funcionando, a agonia vem do fato puro e simples da vida ter me guardado alguns infortúnios que eu realmente não esperava. Se alguém me dissesse na adolescência que, à essa altura do campeonato, estaria batendo cabeça pra encontrar um caminho profissional, enquanto minha vida afetiva vai maravilhosamente bem, obrigada, eu cairia no chão de rir.

É claro que é ótimo chegar numa dessas festas de família e todo mundo te achar linda, luminosa, magra, diferente. Sorrisos muitos, roupa bonita, momentos de tranqüilidade. A auto-estima dispara - eu me senti bem, sim. Não dá pra ter tudo, não é mesmo? Só que gente é feita pra querer mais... e eu ainda quero muitas coisas, e agora. Mais festa, mais sorrisos, mas agora completos, com tudo o que eu posso. Soluções para essas chatices que tanto me atormentam. Comer bem, umas comprinhas no shopping, viagens bacanas - às minhas expensas. Poder ler sobre a História de Portugal, o Concílio de Nicéia, o Império Romano, tudo sem a menor obrigação. Paz. Tranqüilidade. E, quem sabe, no futuro, voltar com pretensões maiores a desejos que se mostraram tão amargos quando tentei realizá-los...

Eu não debutei no meu tempo de debutar. Achava, ou melhor, ainda acho - e que meus tios e minhas primas nunca leiam esse blog - muito cafona. Não sei o que isso significará pra elas, já que hoje em dia ninguém espera o baile de debutantes pra usar salto alto pela primeira vez, nem está interessada em ser "apresentada à sociedade" e arrumar um pretendente para casar. Entretanto, gosto da origem da palavra debutante. Début. Começo. Do zero.

Vai ver debutei um pouco também na sexta-feira. Redébut. Vontade, ou necessidade, de intentar uma nova trajetória, viver outros sonhos. Ainda é tempo de tirar de mim aquilo que tenho pra me dar...

16.4.07

Pílulas III

Não entendo as pessoas que dizem que fizeram essa ou aquela maluquice porque estavam bêbadas.
As maiores bobagens que eu já fiz na vida foram à base de Guaraná Antarctica - light.

4.4.07

Pílulas II

Frase batida, clichê encardido: o primeiro e último amor é o amor próprio.

Às vezes a gente esquece.

Hoje eu me lembrei.

3.4.07

Pílulas I

Há uns anos, um namorado me contou que uma professora amiga sua definira o doutorado como "a pior coisa que pode acontecer a uma pessoa".

Depois das últimas 48 horas, estou começando a entendê-la.

19.3.07

Uma mulher de virgem

Uma mulher de virgem.
É isso que eu sou, parece. Pelo menos é o que diz o calendário. 27 de agosto.
Esses horóscopos dizem tanta, mas tanta coisa, que findei por recortar umas frasezinhas pra colar e comentar, que nem menina de ginásio. Vamos à limonada:

“Qual a imagem que você faz da mulher de virgem? Por acaso é aquela da donzela vestida de branco, pura e frágil? Sinto muito em dizer que esta idéia não tem nada a ver com a verdade!”
Essa é barbada. Claro que mulheres de Virgem não são donzelas divinais à espera do Príncipe Encantado. Valha-me Deus, quem seria capaz de pensar um despautério desses?!

“A preocupação é algo natural nesta mulher. Elas simplesmente não conseguem relaxar completamente. Mas não espere ver uma fisionomia carregada ou carrancuda. Normalmente elas costumam ter uma aparência serena e sempre o mesmo sorriso discreto, olhar tranqüilo e gestos calculados. Mas, mesmo possuindo este autocontrole e este comportamento sereno, elas costumam ser devoradas por ansiedades que nem o mais íntimo dos amigos tem conhecimento!”
Daí aquele batido comentário: “Nossa, você, tão calminha assim, tem gastrite nervosa e toma ansiolítico??? Não é possível!!!!”

“Ela é uma perfeccionista, o que não significa que seja perfeita. Tem seus traços negativos, e eles podem ser muito irritantes. Para começar, as mulheres de Virgem acreditam obstinadamente que ninguém é capaz de fazer as coisas com tanta ordem e eficiência quanto elas. Quando se trata de admitir que está errada, esta mulher parece sofrer um bloqueio mental. Ela tem mais facilidade para criticar os defeitos nos outros do que para aceitar os seus próprios.”
“Em primeiro lugar, sua espinha é feita de aço inoxidável.”
Muito irritante mesmo. Chatíssima, principalmente quando alguém se permite cometer dois pecados extremos: criticá-la diretamente, sem verniz, e fazer de qualquer jeito algo que ela faria perfeitamente (ou seja: tudo que há no mundo.)

“A virginiana não é nenhuma tola: perceberá uma mentira por mais bem elaborada que seja.”
Aaaahhh... tolinho é quem pensa que engana...

“Demonstrações dramáticas de amor, promessas sentimentais e exagero, não só deixa a mulher de virgem entediada, como podem assusta-la a ponto de nunca mais aparecer. Mas, seu coração pode amolecer se for conquistada aos poucos. Uma vez aceso o amor de Virgo, ele se torna tão incandescente, que faz com que as paixões dos outros signos fujam envergonhadas ante a sua intensidade e coerência de propósitos. Você terá toda a devoção e lealdade que merece. Ela é a única mulher capaz de ser terrivelmente prática e divinamente romântica.”
É por aí... como dizia o poeta: “As aparências enganam/ Aos que odeiam e aos que amam/ Porque o amor e o ódio se irmanam/ Na fogueira das paixões”. A mulher de virgem ama, sofre, se dá – ainda que você não perceba. E um carinho, um abraço, um beijo e um “eu te amo” não são moedas de troca, mas sim a mais pura tradução do que se passa em seu íntimo. Logo... valorize cada pequeno gesto virginiano, porque ele é carregado de significado.

Fontes:
http://www.revistaandros.com.br/virginiana.html
http://www.garotaesperta.com.br/index_03_06.html
http://br.answers.yahoo.com/rss/question?qid=20061024162820AAA1RCQ