O título acima foi tomado de assalto de um texto que li num livro didático quando ainda era bem criança. Ele falava sobre a obsessão que ligava o narrador-personagem à palavra “obsessão”. Toda vez que ia escrevê-la, ele consultava o dicionário para conferir se estava empregando a grafia correta. Quando precisava usá-la assim, no seco, sem ter como confirmar (ah, aquelas trevas pré-internet...), simplesmente pirava. E, a partir daí, ele ia falando sobre pequenas outras obsessões suas. Eu devia ter uns sete ou oito anos, e adorei o texto a ponto de relê-lo um punhado de vezes. Identificação total.28.1.10
De obsessão em obsessão
O título acima foi tomado de assalto de um texto que li num livro didático quando ainda era bem criança. Ele falava sobre a obsessão que ligava o narrador-personagem à palavra “obsessão”. Toda vez que ia escrevê-la, ele consultava o dicionário para conferir se estava empregando a grafia correta. Quando precisava usá-la assim, no seco, sem ter como confirmar (ah, aquelas trevas pré-internet...), simplesmente pirava. E, a partir daí, ele ia falando sobre pequenas outras obsessões suas. Eu devia ter uns sete ou oito anos, e adorei o texto a ponto de relê-lo um punhado de vezes. Identificação total.18.1.10
Daquele jeito
Depois da última cacetada (hoje de manhã, par hasard), resolvi que tudo vai melhorar. E, do jeito que eu sou turrona, duvido que isso não aconteça. Quem viver, verá.
11.1.10
Do desamor
Irônico nisso é que, bem sabemos (e desculpe se queimarei os castelos de algum desavisado), o amor tal como o conhecemos é mais uma bela invenção humana, construída, aperfeiçoada e adornada ao longo de séculos e séculos, principalmente no sentido estrito do amor romântico - esse sem-vergonha. Vivemos um sentimento que, a bem da verdade, ninguém sabe muito bem o que é. Afeto, carinho, paixão, compaixão... Tudo isso, ao fim e ao cabo, não é amor, em diferentes gradações e espécies? E não é essa diversidade de formas de apresentação que traz o “não-sei-quê que faz a confusão”?
Não que o amor seja uma criação perversa ou algo ruim: imagine! Se não fosse esse sentimento tão nobre e humano, teríamos feito muito pouco neste planetinha que nos foi legado. Agora, se há um sentimento outro, sobre o qual nunca ouço falar, embora o veja espalhado pelo mundo, é o desamor.
Ah, o desamor: palavra que traz uma carga imensa de lágrimas e ranho. Quando ela me vem à cabeça, a imagem que faço é daquela bolerosa mulher dos anos 50, vestida em tafetá de seda azul-rei, sozinha, sentada à bancada de um bar na elegantíssima Copacabana de antanho. Enquanto Dolores Duran canta lá no palco um samba-canção cheio desamor, aquela mulher, amargando uma tremenda dor de cotovelo, acende o vigésimo Gaulloises e pede ao barman mais uma dose de whisky - cowboy. Dolores, doce e cruel, entoa:
Toda amargura
Que há no céu
Que há na terra e no mar
Nasceu talvez da tristeza que tens no olhar
No céu há um sol a brilhar
Que beija a terra e o mar
Só tu continuas assim
Dia e noite, a chorar
Mas e o dia seguinte daquela noite etílica e fumarenta?
Primeira hipótese.
Ele não vai voltar; a despeito das crianças, do apartamento na Bolívar e das festas na pérgula do Copa, o desquite é inevitável. Ele foi seu primeiro namorado, o homem a quem seu pai a entregou, com pompa e circunstância, no altar do Mosteiro de São Bento. Ele era seu único e verdadeiro amor, e agora ela o via escapar por entre os dedos e cair nas mãos duma corista do Night and Day. Pois é: além de ganhar a medonha pecha de desquitada, ainda teria de suportar perder seu homem, de fato e direito, pra uma Certinha do Lalau. Como viver com isso?
Por uma ironia cruel
Alguém começou a cantar
O samba canção de Noel
Que viu nosso amor começar
Só falta agora
A porta se abrir
E ele ao lado de outra chegar
E por mim passar
Sem me olhar
E já era manhã quando, levando os scarpins na mão, deixou seus pés tocarem na areia úmida do Posto 4. Debruçado num janelão que se abria pro atlântico sul, o poeta (havia muitos, de verdade, naquele tempo) via aquela mulher que, lenta e firmemente, entrava no mar, submergindo sem susto, como se encharcar os pulmões de água até fenecer fosse a única coisa sábia a fazer.
Segunda hipótese.
Ele não vai mesmo voltar, e essa certeza dói demais. Ela ama aquele homem de tal forma, e há tanto tempo, que nem sequer se lembra de como era viver sem amá-lo. E será que é possível desamar? Há de ser: é isso ou a morte. Morrer duas vezes é pensar nos meninos criados por uma madrasta vedete de teatro de revista. Morrer três vezes é saber que mal completou 30 anos, que tem bons pulmões (apesar do cigarro), que é linda e cobiçada e que dará cabo da própria vida se não aprender o que é desamor.
Vamos sair por aí
Sem pensar no que foi
Que sonhei
Que chorei, que sofri
Pois a nossa manhã
Já me fez esquecer
Me dê a mão
Vamos sair pra ver o sol
31.12.09
Entre mortos e feridos
Volto em 2010. Certeza.
27.12.09
Suburbano coração

Se há algo de bom na velha tradição do subúrbio carioca, é o brio. Por lá, há um código moral bem forte, no qual as palavras “orgulho” e “humilhação” tem um peso muito maior do que no lado bacanérrimo do Rebouças. Coisa típica de uma gente humilde que, por não ter Cadillac e champanhota, preservava ciosamente o único bem que possuía: a honra. Sabe aquela história do fio do bigode de um homem valer mais do que um documento com firma reconhecida? Pois é.
Quem nasceu em família suburbana, por mais que tenha tido papais moderninhos, cartão de crédito aos dezesseis e viagens supimpas, guarda sempre em algum cantinho do seu espírito esses valores. Mas como a vida é arteira e finda por nos conduzir pra lugares e pessoas bem distantes da Praça das Nações, não raro esquecemos de nossa essência além-túnel. E é no esquecimento que surge a incontinência pública, a exposição. Escândalo, pra quem não sabe, é coisa que pelo Méier não passa, embora as novelas globais tentem provar o contrário o tempo inteiro - é que os teledramaturgos de lá não vêm; só sabem na base do “ouvi falar”. Se há esparrela fácil, fácil de se cair, é a de que gente humilde é chegada a gritaria e esculhambação. Nananinanão. A classe média baixa carioca, desde que o samba era samba canção, paga com sacrifício aulas de balé e piano pras meninas, tira foto em dia de festa, ensina que não pode “colocar a mão em nada” quando se está na casa dos outros, e também que nunca devemos “nos esganar” nas festas. Assim minha avó criou a minha mãe, e assim minha mãe me criou - com a diferença de que, na minha geração, podia perguntar o porquê das coisas e conversar de igual pra igual. Mudam os tempos, mas determinados conceitos são imutáveis.
E se dá que, um dia, inadvertidamente, sua formação suburbana vem à tona. Você, sempre tão modernosa e divertida, vê-se amarrando uma cara de ofendida daquelas, como se tivessem arrancado um pedaço do seu verniz de boa moça. Não adianta: alguém te enredou num escândalo, expôs sua boa vontade, mostrou algo de (seu) foro íntimo a gente demais. Isso te toca, irrita, aborrece, e a menina de laço de fita no passeio vespertino pela Dias da Cruz fala do estômago (é lá que ela vive) a queixa chorosa, a bronca ressentida. Claro que isso tudo pode acontecer num lapso de minuto; geralmente o tempo de você demonstrar ao ofensor que ele passou do limite. Estando provado por A mais B que você tem lá seus princípios, a menina suburbana sossega e para de espremer suco gástrico, caindo num sono sem pecado. Pronto: você parou de se envenenar. Depois da rebordosa, volta ao velho charme habitual, porque, afinal de contas, essa mulher que se tornou é a colcha de retalhos de uma vida bem rica. E ri, alto e gostoso, de mais uma pernada que a vida tentou te dar.
22.12.09
Pílulas VI
11.12.09
6.12.09
Ma vie en vert, blanc et rouge

27.4.09
Além de Paris, em abril

13.4.09
Brilho Eterno

Curioso é que essa notícia me pegou num dia especialmente nostálgico. Na casa do meus pais para o feriado da Páscoa, reencontrei numa bolsa de viagem embolorada as fotos de toda a minha vida - ou pelo menos de uma parte considerável dela. Flavia bebê de cabelos clarinhos com vovô e vovó; Flavia no apartamento de Laranjeiras aprendendo a dançar com o Dindo; Flavia banguela na festa de fim de ano da escola; Flavia com os primos brincando no chão da casa da tia-avó; Flavia com papai e mamãe na Cidade da Criança... E com os amigos em Maceió, em Teresópolis, no Rio, em todo o canto. Fato inconteste é que quase todas essas lembranças são muito felizes e luminosas, contudo salpicadas de tristezas que, lá e cá, tornam a vida agridoce - requinte de paladar que, cá pra nós, diz muito mais à minha língua do que o que é excessivamente açucarado.
Evidente que há coisas pelas quais eu preferia não ter passado. Já segurei barras pesadas demais pros meus 28 anos... fatos terríveis, dolorosos ou difíceis mas que, ao fim e ao cabo, fazem parte da minha história de uma forma indissociável. Fico imaginando se toda essa tecnologia da neurociência estivesse ao meu alcance amanhã de manhã quando eu acordasse. Algo como um vendedor no melhor estilo “Avon chama” batendo à porta do meu apartamento, portando uma engenhoca capaz de apagar lembranças ruins por preços módicos. A senhora escolhe, eu apago. E aí, como escolher? Aliás... devo escolher? O que sobraria de mim, depois de eliminar as experiências negativas?
Apesar dos tropeções (meus e dos outros) que bagunçaram meu coreto tantas vezes, acho que ser quem eu sou ainda me dá um profundo prazer. Sabe aquele verso do Caetano, “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”? Pois é... sou tão arraigada às minhas dores e delícias que jamais saberia viver sem elas. Há os que chamam isso de autoestima elevada. Melhor assim.
15.3.09
Três casamentos e um pouco de audácia

4.2.09
Volare
E sonhando como será o passo número 2 dessa valsa da vida adulta...
25.1.09
Pílulas IV
18.1.09
Uma pequena porção de nada
Como parte desse desejo tão antigo quanto a minha volta pra cá, na época da faculdade, fiz inúmeros concursos pra outros estados, tentei bolsas de estudo e avaliei propostas de emprego. Ao fim e ao cabo, nenhuma dessas tentativas resultou numa mudança efetiva. Quando muito geraram em mim uma positiva ansiedade, mas ficaram nisso.
Hoje, enquanto andava aqui pelo Largo do Machado, aporrinhada com a minha gripe e pensando se deveria ou não ver Vicky Cristina Barcelona na sessão das 4, me dei conta de que viver no Rio é bom, muito bom. Ah, é melhor ainda se você, assim como eu, prezar pelo conforto e não se importar em manter o ar condicionado ligado durante os dias mais quentes. Esse clima de balneário, principalmente no verão, deixa a cidade especialmente risonha. Gostoso entrar na Galeria São Luiz e almoçar um temaki fresquinho como o tempo pede, depois assistir a um filme e finalmente vir pra casa encontrar um bom romance na estante. Sim: existe felicidade nessa cidadezinha ao Sul do Equador.
O caso é que felicidade existe em outros cantos também. E uma felicidade sem as cobranças de memórias construídas ao longo dos anos, de lugares que remetem a pessoas que por vezes adoraríamos esquecer de vez. Embora eu tenha passado grande parte da minha vida fora do Rio, aqui vivem as mais fortes lembranças da tríade amigos-amores-família. Nômade que sou, essa avalanche de referências me sufoca a ponto de fazer sofrer. Quase impossível circular pela cidade sem lembrar de um bom momento que não volta mais, de alguém querido que morreu, de tudo de bom e de ruim que vivi aqui.
Se você leu isso e pensou que é assim mesmo, que o negócio é tocar pra frente, respondo que não sei. Com todo o carinho que tenho pelo estonteante cenário carioca, pra mim ele se parece com uma folha de papel de carta bem decorada, mas desgastada por contínuos esfregões de borracha. Uma hora a folha, de tão fininha, se rasga, e não há mais como remendá-la. É hora de fazer um novo começo, sem vícios, num papel novinho.
Sei que para muitos meu raciocínio deve se parecer com fuga da realidade, um ultraromantismo tolo. Talvez seja mesmo. Mas prefiro cultivar essa ilusão boa a achar que, onde quer que eu vá, carregarei um fardo grande e pesado de passados. Ah, e talvez nem seja tão ilusório pensar assim. Qual de nós não voltou melhor de uma viagem feita no momento em que a vida parecia mais complicada? Quem nunca ouviu uma história sobre pessoas que conseguiram se afastar de vez de parentes indesejáveis quando resolveram mudar de cidade?
Não sei até quando permanecerei no Rio, mas sei que hoje, mais do que nunca, ficar ou sair dependerá integralmente do meu empenho pessoal, com uma pequena ajudinha do acaso. O destino - sempre ele - tem me apontado, com pequenos incidentes, novos caminhos. O melhor desse momento da minha vida, sem dúvida, é a tranquilidade que adquiri pra esperar o tempo certo de semear e colher. Mas isso já é tema pra um outro post.
15.10.08
Terríveis tentações
Que eu não faça isso de novo, sob pena de virar estátua de sal.
E que os anjos continuem velando por mim.
10.12.07
Pra não chorar...
Era antevéspera do meu aniversário.
Havia menos de 2 anos que eu tinha voltado pro Rio com a minha família, depois de quatro anos e meio entre Maceió e Curitiba. A temporada fora me proporcionou uma infância saudável, sem preocupações com violência urbana, e a oportunidade de viver coisas tão simples e deliciosas como pular amarelinha e elástico na rua, andar descalça e correr de bicicleta.
Mas eu tinha voltado pro Rio, ou melhor, pra Teresópolis, porque meus pais preferiram enfrentar 200 quilômetros de estrada por dia a me expor ao caos da segurança pública do Rio de Janeiro. Não conseguiam me imaginar pegando ônibus, tendo tênis roubado, essas coisas. Expostos a isso sempre estiveram meus parentes maternos, habitantes irremediáveis da Penha, Méier e Bonsucesso. Minha mãe foi criada num subúrbio carioca quase idílico; minha avó e suas irmãs mais novas, adolescentes bonitas e bem vestidas, faziam o "footing" nas tardes de domingo na Praça das Nações. Assim conheceram seus futuros maridos.
Algumas tragédias, infelizmente, são anunciadas. Na noite de 25 de agosto de 1994, o telefone tocou. Andréa, minha prima e afilhada da minha mãe, tinha sido novamente assaltada enquanto dirigia. Para nós, era algo quase corriqueiro. Já tínhamos perdido a conta dos roubos de carro a mão armada pelos quais a Andréa já tinha passado, e uma vez, dois anos antes, havia sido até pior: após tomar uma "fechada" na Av. Brasil, quando voltava da faculdade pra casa, os bandidos a colocaram no banco de trás e correram todo o subúrbio fazendo assaltos. Lembro dela contando a história pra minha mãe no telefone, e dizendo: "Eu não agüento mais viver aqui, quando eu me formar quero sair do Rio, quem sabe ir pra Maceió... posso morar com você, Dinda?"
Não deu tempo. O último assalto pegou minha prima no 5º período da faculdade de Administração. Foi à concessionária pegar o carro novo, um Prêmio novinho em folha, e ligou pra avó pedindo que não contasse a ninguém, porque meus tios pensavam que ela só o buscaria no sábado, e queria fazer surpresa. No caminho, passaria na faculdade, a Estácio de Sá do Rio Comprido, pra entregar um trabalho. Estava parada no sinal da Rua do Bispo com a Barão de Itapagipe quando alguém bateu com o cano de uma arma no vidro do ser lado. Assustada, tirou o pé da embreagem. O carro pulou, o assaltante pensou que ela fosse fugir e atirou. Por milímetros, a medula foi atingida.
Passei meu aniversário no hospital, junto com toda a família, mobilizada em torno daquele drama. Doze dias em coma, e a morte. Andréa tinha 23 anos, era linda, feliz e fazia muitos planos de futuro. Acabou. O enterro foi no dia do aniversário da minha mãe. Ela era apaixonada pela prima e afilhada, um amor tão grande que às vezes até me dava ciúmes. Arrisco dizer que, depois daquele dia, nunca mais foi a mesma.
Por uma infelicidade extrema, conheço o que a família do menino Hugo deve estar sentindo agora. Uma criança adorável, com a vida ceifada tão precocemente... não sei mais o que dizer.
E a cidade é linda. Talvez eu seja covarde e devesse lutar mais, mas cansei desse lugar. Mesmo. Quero ir embora, criar os filhos que terei sem medo de beijar-lhes a têmpera de manhã e vê-los estirados em alguma esquina à tarde. Não há quem mereça passar pelo que os meus tios e os pais do Hugo passaram.
21.11.07
Comme toujours
Parce que c'est très dificille de comprendre que, parfois, personnes ont le désir de voir dans l'âme des autres ses imperfections.
Mais je sais qui je suis: la même jolie elevée pour être une femme sensible, intelligente, belle, libre, singulaire, et aussi pleine d'amour pour donner.
Drôle.
Regardez ton interieur par deux minutes. Ta nature c'est l'opposé de ma nature. Tu n'est pas un homme seul, mais je suis comme ça par essence. Tandis que je suis unique, je peux t'aimer.
Lá, au débout de mon chemin, l'insatisfaction, la tristesse, tout ça se deviendra une pâle souvenir, ainsi que ton visage. Mais je pourrai regarder mes jours de jeunesse et voir les plus belles couleurs du bonheur...
27.10.07
Musa

Quem estava em casa nessa sexta-feira à noite teve a oportunidade de ver um requinte de delicadeza na tela da Globo: o especial "Por toda a minha vida" que homenageou Nara Leão. Após passar mais da metade da minha vida sonhando com o dia em que Nara receberia uma homenagem à altura de sua importância para a cultura brasileira, tive a alegria e a emoção de ver minha pequenina TV, que ganhei quando tinha 5 anos e que tantas vezes me transmitiu fragmentos de Nara - pedacinhos de luz e brilho que clarearam minha adolescência -, mostrá-la por inteiro, sem enganos ou informações confusas. Tiremos, pois, o chapéu pra emissora dos Marinho: numa tacada só, presentearam nossos olhos e ouvidos com imagens raras do Show Opinião, o áudio da primeira apresentação pública de Nara - a voz emocionante, trêmula e delicada, de uma menina de 17 anos-, e as entrevistas em que a sua simplicidade, coerência e honestidade para com o mundo e consigo mesma transpareceram de modo incrivelmente claro.
Sempre tive uma profunda admiração por Nara Leão. Desde criança, sua imagem inspirou em mim algo muito forte. Eu adorava ouvir Elis, mas Nara tinha os meus cabelos, um jeito moreno, sem laquês, brilhos e maquiagem de palco; era uma pessoa adulta, assim como eu era uma pessoa menina. Que graça: antes da voz, da história de vida, de tudo, veio essa indentificação, que nunca consegui criar com qualquer outro artista. Depois, inoculado em mim o vírus da curiosidade, escrafunchei e entendi que aquela terrenidade de Nara era fruto da consciência de que ser artista não é diferente de ser médica ou engenheira: como todo profissional, o músico deve ter responsabilidade, vocação, sensiblidade e competência. Pra que afetações e 1000 toalhas brancas no camarim?
Essa postura de Nara diante da carreira fez com que fosse qualificada como "anti-artista". Sempre ouço das pessoas que com ela conviveram a observação de que era absurdamente simples como mãe, dona de casa e profissional. Resistia ao assédio da mídia e das pessoas não por arrogância ou complexo de superioridade; muito pelo contrário, não se via como alguém "especial" ou "diferente" só pelo fato de ser cantora. Ironicamente, essa visão de Nara, somada à sua acuidade para descobrir novos talentos, dar voz aos esquecidos e fazer seu trabalho da forma mais bela e digna possível, tornaram-na um mito. Passados quase 20 anos de sua morte, há um séquito de fãs apaixonados, que criam e movimentam comunidades virtuais, compram seus álbuns e DVDs, dividem gostos e exultam sua personalidade. A mulher que fundou a MPB, bateu de frente com os militares e lutou bravamente pela vida por 10 anos está viva por todos os cantos. Como disse Ruy Castro no dia de sua morte, "Não chorem; ouçam seus discos."
Ainda estou muito tocada pelo especial de ontem, mas há algo de bem egoísta nisso. Maior do que a alegria e a emoção de presenciar toda a ode, sinto-me profundamente feliz por ter escolhido Nara pra minha vida. Se me identifico com ela, deve haver algo de muito bom em mim. Não tenho mais 14 anos de idade, meu violão há muito tempo repousa num canto da casa de Teresópolis, mas... quanto orgulho!
20.7.07
737-100

