Hoje é terça-feira, ontem foi feriado e minhas pequenas primas debutaram na sexta.
Não vou dizer que me sinto velha e horrorosa por isso. Seria hipocrisia pura da minha parte. A verdade é que, apesar das pancadas que já levei, hoje sou muito mais jovem e bonita do que era com 15 anos. Um viva aos milagres do tempo e da indústria cosmética.
Mas, oh, não me canso de reclamar: a fase é difícil. Por mais que tenha algumas novas diretrizes bem traçadas para mudar o rumo do que não vinha funcionando, a agonia vem do fato puro e simples da vida ter me guardado alguns infortúnios que eu realmente não esperava. Se alguém me dissesse na adolescência que, à essa altura do campeonato, estaria batendo cabeça pra encontrar um caminho profissional, enquanto minha vida afetiva vai maravilhosamente bem, obrigada, eu cairia no chão de rir.
É claro que é ótimo chegar numa dessas festas de família e todo mundo te achar linda, luminosa, magra, diferente. Sorrisos muitos, roupa bonita, momentos de tranqüilidade. A auto-estima dispara - eu me senti bem, sim. Não dá pra ter tudo, não é mesmo? Só que gente é feita pra querer mais... e eu ainda quero muitas coisas, e agora. Mais festa, mais sorrisos, mas agora completos, com tudo o que eu posso. Soluções para essas chatices que tanto me atormentam. Comer bem, umas comprinhas no shopping, viagens bacanas - às minhas expensas. Poder ler sobre a História de Portugal, o Concílio de Nicéia, o Império Romano, tudo sem a menor obrigação. Paz. Tranqüilidade. E, quem sabe, no futuro, voltar com pretensões maiores a desejos que se mostraram tão amargos quando tentei realizá-los...
Eu não debutei no meu tempo de debutar. Achava, ou melhor, ainda acho - e que meus tios e minhas primas nunca leiam esse blog - muito cafona. Não sei o que isso significará pra elas, já que hoje em dia ninguém espera o baile de debutantes pra usar salto alto pela primeira vez, nem está interessada em ser "apresentada à sociedade" e arrumar um pretendente para casar. Entretanto, gosto da origem da palavra debutante. Début. Começo. Do zero.
Vai ver debutei um pouco também na sexta-feira. Redébut. Vontade, ou necessidade, de intentar uma nova trajetória, viver outros sonhos. Ainda é tempo de tirar de mim aquilo que tenho pra me dar...
24.4.07
16.4.07
Pílulas III
Não entendo as pessoas que dizem que fizeram essa ou aquela maluquice porque estavam bêbadas.
As maiores bobagens que eu já fiz na vida foram à base de Guaraná Antarctica - light.
As maiores bobagens que eu já fiz na vida foram à base de Guaraná Antarctica - light.
4.4.07
Pílulas II
Frase batida, clichê encardido: o primeiro e último amor é o amor próprio.
Às vezes a gente esquece.
Hoje eu me lembrei.
Às vezes a gente esquece.
Hoje eu me lembrei.
3.4.07
Pílulas I
Há uns anos, um namorado me contou que uma professora amiga sua definira o doutorado como "a pior coisa que pode acontecer a uma pessoa".
Depois das últimas 48 horas, estou começando a entendê-la.
Depois das últimas 48 horas, estou começando a entendê-la.
19.3.07
Uma mulher de virgem
Uma mulher de virgem.
É isso que eu sou, parece. Pelo menos é o que diz o calendário. 27 de agosto.
Esses horóscopos dizem tanta, mas tanta coisa, que findei por recortar umas frasezinhas pra colar e comentar, que nem menina de ginásio. Vamos à limonada:
“Qual a imagem que você faz da mulher de virgem? Por acaso é aquela da donzela vestida de branco, pura e frágil? Sinto muito em dizer que esta idéia não tem nada a ver com a verdade!”
Essa é barbada. Claro que mulheres de Virgem não são donzelas divinais à espera do Príncipe Encantado. Valha-me Deus, quem seria capaz de pensar um despautério desses?!
“A preocupação é algo natural nesta mulher. Elas simplesmente não conseguem relaxar completamente. Mas não espere ver uma fisionomia carregada ou carrancuda. Normalmente elas costumam ter uma aparência serena e sempre o mesmo sorriso discreto, olhar tranqüilo e gestos calculados. Mas, mesmo possuindo este autocontrole e este comportamento sereno, elas costumam ser devoradas por ansiedades que nem o mais íntimo dos amigos tem conhecimento!”
Daí aquele batido comentário: “Nossa, você, tão calminha assim, tem gastrite nervosa e toma ansiolítico??? Não é possível!!!!”
“Ela é uma perfeccionista, o que não significa que seja perfeita. Tem seus traços negativos, e eles podem ser muito irritantes. Para começar, as mulheres de Virgem acreditam obstinadamente que ninguém é capaz de fazer as coisas com tanta ordem e eficiência quanto elas. Quando se trata de admitir que está errada, esta mulher parece sofrer um bloqueio mental. Ela tem mais facilidade para criticar os defeitos nos outros do que para aceitar os seus próprios.”
“Em primeiro lugar, sua espinha é feita de aço inoxidável.”
Muito irritante mesmo. Chatíssima, principalmente quando alguém se permite cometer dois pecados extremos: criticá-la diretamente, sem verniz, e fazer de qualquer jeito algo que ela faria perfeitamente (ou seja: tudo que há no mundo.)
“A virginiana não é nenhuma tola: perceberá uma mentira por mais bem elaborada que seja.”
Aaaahhh... tolinho é quem pensa que engana...
“Demonstrações dramáticas de amor, promessas sentimentais e exagero, não só deixa a mulher de virgem entediada, como podem assusta-la a ponto de nunca mais aparecer. Mas, seu coração pode amolecer se for conquistada aos poucos. Uma vez aceso o amor de Virgo, ele se torna tão incandescente, que faz com que as paixões dos outros signos fujam envergonhadas ante a sua intensidade e coerência de propósitos. Você terá toda a devoção e lealdade que merece. Ela é a única mulher capaz de ser terrivelmente prática e divinamente romântica.”
É por aí... como dizia o poeta: “As aparências enganam/ Aos que odeiam e aos que amam/ Porque o amor e o ódio se irmanam/ Na fogueira das paixões”. A mulher de virgem ama, sofre, se dá – ainda que você não perceba. E um carinho, um abraço, um beijo e um “eu te amo” não são moedas de troca, mas sim a mais pura tradução do que se passa em seu íntimo. Logo... valorize cada pequeno gesto virginiano, porque ele é carregado de significado.
Fontes:
http://www.revistaandros.com.br/virginiana.html
http://www.garotaesperta.com.br/index_03_06.html
http://br.answers.yahoo.com/rss/question?qid=20061024162820AAA1RCQ
É isso que eu sou, parece. Pelo menos é o que diz o calendário. 27 de agosto.
Esses horóscopos dizem tanta, mas tanta coisa, que findei por recortar umas frasezinhas pra colar e comentar, que nem menina de ginásio. Vamos à limonada:
“Qual a imagem que você faz da mulher de virgem? Por acaso é aquela da donzela vestida de branco, pura e frágil? Sinto muito em dizer que esta idéia não tem nada a ver com a verdade!”
Essa é barbada. Claro que mulheres de Virgem não são donzelas divinais à espera do Príncipe Encantado. Valha-me Deus, quem seria capaz de pensar um despautério desses?!
“A preocupação é algo natural nesta mulher. Elas simplesmente não conseguem relaxar completamente. Mas não espere ver uma fisionomia carregada ou carrancuda. Normalmente elas costumam ter uma aparência serena e sempre o mesmo sorriso discreto, olhar tranqüilo e gestos calculados. Mas, mesmo possuindo este autocontrole e este comportamento sereno, elas costumam ser devoradas por ansiedades que nem o mais íntimo dos amigos tem conhecimento!”
Daí aquele batido comentário: “Nossa, você, tão calminha assim, tem gastrite nervosa e toma ansiolítico??? Não é possível!!!!”
“Ela é uma perfeccionista, o que não significa que seja perfeita. Tem seus traços negativos, e eles podem ser muito irritantes. Para começar, as mulheres de Virgem acreditam obstinadamente que ninguém é capaz de fazer as coisas com tanta ordem e eficiência quanto elas. Quando se trata de admitir que está errada, esta mulher parece sofrer um bloqueio mental. Ela tem mais facilidade para criticar os defeitos nos outros do que para aceitar os seus próprios.”
“Em primeiro lugar, sua espinha é feita de aço inoxidável.”
Muito irritante mesmo. Chatíssima, principalmente quando alguém se permite cometer dois pecados extremos: criticá-la diretamente, sem verniz, e fazer de qualquer jeito algo que ela faria perfeitamente (ou seja: tudo que há no mundo.)
“A virginiana não é nenhuma tola: perceberá uma mentira por mais bem elaborada que seja.”
Aaaahhh... tolinho é quem pensa que engana...
“Demonstrações dramáticas de amor, promessas sentimentais e exagero, não só deixa a mulher de virgem entediada, como podem assusta-la a ponto de nunca mais aparecer. Mas, seu coração pode amolecer se for conquistada aos poucos. Uma vez aceso o amor de Virgo, ele se torna tão incandescente, que faz com que as paixões dos outros signos fujam envergonhadas ante a sua intensidade e coerência de propósitos. Você terá toda a devoção e lealdade que merece. Ela é a única mulher capaz de ser terrivelmente prática e divinamente romântica.”
É por aí... como dizia o poeta: “As aparências enganam/ Aos que odeiam e aos que amam/ Porque o amor e o ódio se irmanam/ Na fogueira das paixões”. A mulher de virgem ama, sofre, se dá – ainda que você não perceba. E um carinho, um abraço, um beijo e um “eu te amo” não são moedas de troca, mas sim a mais pura tradução do que se passa em seu íntimo. Logo... valorize cada pequeno gesto virginiano, porque ele é carregado de significado.
Fontes:
http://www.revistaandros.com.br/virginiana.html
http://www.garotaesperta.com.br/index_03_06.html
http://br.answers.yahoo.com/rss/question?qid=20061024162820AAA1RCQ
13.3.07
Querelas do Brasil
Terça-feira de sol ardido no Rio de Janeiro.
Mais uma vez, cheguei com pilhas de livros pra entregar na biblioteca, e o atendente pergunta como consegui levar tantos de uma vez. É que o limite pra alunos da graduação são 2, mas os da pós podem pegar até 5. Quase oito anos depois do primeiro dia na UFF, ainda passo por universitária.
Saio da Uerj. Calça jeans, camiseta, Havaianas moderninhas, bolsa enorme, óculos escuros bacanas. No momento em que atravesso a passarela do Metrô, tenho um raro momento de reflexão otimista. A Radial Oeste passa sob os meus pés; ao lado está o Maracanã; ali atrás, o Cristo. Tenho 26 anos, acabei de fazer a inscrição nas disciplinas do doutorado e, peito cheio, penso que, se tudo correr bem, aos 30 terei conseguido o mais importante título da carreira de um intelectual. Às vezes nem eu acredito que isso está acontecendo tão cedo, apesar de todo o estudo, da passagem pelos melhores cursos de idiomas, os livros, viagens, colégios da melhor qualidade. Boa educação custa caro, e começa na primeira infância. Devo ser a mais jovem nessa turma de doutorandos.
O metrô pára na plataforma. Fugindo do calor renitente do final de verão carioca, vou ao encontro do ar condicionado; rapidamente entro e sento. De frente pra mim, cochila um homem mulato, de cabelos grisalhos, forte, bem composto, talvez um pouco envelhecido. Deve ter uns 40 e poucos anos, e parece mais pesado que cansado. Pela janela, o pano de fundo do seu sono é o Morro da Mangueira, teimando em ser idílico. Penso nos tempos em que os músicos negros não podiam entrar nas rádios, e vendiam seus sambas por qualquer preço aos compositores e cantores brancos. Lembro que Cartola, já poeta de meia-idade com diversas canções gravadas, foi encontrado lavando carros na Zona Sul, no início dos anos 60. Num átimo, retorno ao homem, que dorme profundamente, e percebo que a sua camisa cinza-mescla traz uma estampa da rede pública de ensino. Aluno uniformizado de nível fundamental.
Do lado de fora, o sol estala na lataria dos trens. O fim de tarde arde. No Estácio, salto do vagão e o homem continua lá, dormindo. Talvez perca a aula.
Mais uma vez, cheguei com pilhas de livros pra entregar na biblioteca, e o atendente pergunta como consegui levar tantos de uma vez. É que o limite pra alunos da graduação são 2, mas os da pós podem pegar até 5. Quase oito anos depois do primeiro dia na UFF, ainda passo por universitária.
Saio da Uerj. Calça jeans, camiseta, Havaianas moderninhas, bolsa enorme, óculos escuros bacanas. No momento em que atravesso a passarela do Metrô, tenho um raro momento de reflexão otimista. A Radial Oeste passa sob os meus pés; ao lado está o Maracanã; ali atrás, o Cristo. Tenho 26 anos, acabei de fazer a inscrição nas disciplinas do doutorado e, peito cheio, penso que, se tudo correr bem, aos 30 terei conseguido o mais importante título da carreira de um intelectual. Às vezes nem eu acredito que isso está acontecendo tão cedo, apesar de todo o estudo, da passagem pelos melhores cursos de idiomas, os livros, viagens, colégios da melhor qualidade. Boa educação custa caro, e começa na primeira infância. Devo ser a mais jovem nessa turma de doutorandos.
O metrô pára na plataforma. Fugindo do calor renitente do final de verão carioca, vou ao encontro do ar condicionado; rapidamente entro e sento. De frente pra mim, cochila um homem mulato, de cabelos grisalhos, forte, bem composto, talvez um pouco envelhecido. Deve ter uns 40 e poucos anos, e parece mais pesado que cansado. Pela janela, o pano de fundo do seu sono é o Morro da Mangueira, teimando em ser idílico. Penso nos tempos em que os músicos negros não podiam entrar nas rádios, e vendiam seus sambas por qualquer preço aos compositores e cantores brancos. Lembro que Cartola, já poeta de meia-idade com diversas canções gravadas, foi encontrado lavando carros na Zona Sul, no início dos anos 60. Num átimo, retorno ao homem, que dorme profundamente, e percebo que a sua camisa cinza-mescla traz uma estampa da rede pública de ensino. Aluno uniformizado de nível fundamental.
Do lado de fora, o sol estala na lataria dos trens. O fim de tarde arde. No Estácio, salto do vagão e o homem continua lá, dormindo. Talvez perca a aula.
12.3.07
Cansaço
É essa a sensação.
Tanto correr atrás, horas intermináveis de pesquisa, uma batelada de textos, livros, anuários, compêndios, trabalho desde 0 3º período, e pra quê, me diga? As coisas simplesmente não funcionam, é assim.
O tempo de faculdade prometia, com o estágio bacana que se tornou contrato antes mesmo da formatura. Ambiente que era quase minha casa, chefes que eram meus mestres, sem deixar de serem chefes, remuneração compatível com o meu momento. Fiz projetos ótimos, escrevi livro, editei revista, conheci pessoas que admirava, aprendi muito. Mas deu-se que mudou o governo, veio a dança das cadeiras e... pronto. Todo mundo fora. Eu junto.
Vieram logo outros dois trabalhos, ambos públicos, suscetíveis às vicissitudes de sempre. No primeiro, um chefe de caráter duvidoso e uma conjunção política contrária e lá estava eu, mais uma vez fora. No segundo, nem cargo tinha - uma confusão total e completa. Depois de atrasos no pagamento, situação totalmente irregular, gente nomeada pra cargo de direção que nem sabia o que estava fazendo ali e, claro, a sensação de que estava permitindo a um tempo valioso da minha vida passar em vão por um trabalho que se extinguiria tão logo se extinguisse o governo, quem jogou a toalha fui eu. Fui estudar de novo, preparar meu projeto de reingresso no universo acadêmico. Nos meses de penúria pós-aprovação no mestrado e pré-concessão de bolsa, achei que tinha dado um péssimo passo. Besteira. Pouco tempo depois, a velha roda-viva da política passou e levou todo mundo pra bem longe daquele gabinete kafkiano, sob duríssimas acusações de corrupção e investigação do Ministério Público. Estivesse eu lá, hoje estava respondendo a inquérito administrativo. Bendito espírito de juventude...
Desde então, nunca mais voltei a trabalhar num escritório ou coisa que o valha. A bolsa mixa de mestrado me permitiu uma vidinha de estudante como antes eu ainda não havia conhecido e, confesso, isso me fez um bem mais que grande. Poder simplesmente desenvolver o conhecimento, assistir aulas, definir os rumos da pesquisa, apresentar comunicações, levar a outras paragens os resultados da minha investigação foi o maior prazer profissional que jamais sentira. Felicidade. Apesar de alguns percalços, tudo correu da melhor maneira possível: rendimento excelente e defesa de dissertação num clima de paz e passarinhos, com aprovação unânime no final.
Mas, até como o que é bom dura pouco, veio a seleção para a próxima etapa. Aqui, senhores, ainda não há o afastamento suficiente para contar com pormenores tudo o que houve, ou minha mais franca opinião sobre esse processo, mas adianto que não foi muito legal não. Ok, reclamando de barriga cheia: fui aprovada, estou dentro, ainda faço parte dessa tripulação. Mas a bolsa, famigerada bolsa, ainda mixa, mas um pouquinho mais gorda que aquela outra, tudo indica, não virá mesmo. E tome enviar currículo, fazer curso preparatório pra concurso público, esforços sem resultados concretos até agora. As provas, como todo mundo está careca de saber, estão cada vez mais disputadas. Sim, é questão de tempo, mas quanto? Dia desses, o coordenador de uma graduação fez mea culpa: "É, seu currículo é ótimo, mas não tenho como te contratar sem que você tenha experiência docente. Mas como você vai ter experiência docente, se ninguém te contratar por isso, né?" Um sábio.
Dentro de alguns dias, completarei um ano totalmente entregue às expensas paternas - o primeiro desde os 19 anos. A paciência foi-se escoando a conta-gotas; a perseverança, seja lá o que isso signifique, já dá claros sinais de esmorecimento. Estou cansada, burocratizada, fragilizada. Não sou senhora de planejar coisas, tomar decisões, estabelecer metas. Além dos conflitos internos, tão numerosos quanto os de um saco de gatos, ainda existe todo o ambiente externo, que parece querer te constranger o tempo inteiro. O ser humano não é necessariamente bom, sinto informar, e são poucos os que tem o mínimo de sensibilidade para perceber que não é divertido ter tempo de sobra, que você não escolheu a vagabundagem como um estilo de vida e, principalmente, que viajar a tiracolo dos teus pais não é sinônimo de diversão de graça, nem de que você pode se permitir pequenos luxos com freqüência. De dentro, as coisas são bem menos bonitas do que parecem.
Mas, como diz a minha mãe, há que se ter fé, pois sem ela nada somos. Enquanto houver vida, é tempo de tocar a bola. Quem sabe, dia desses, sai gol.
Tanto correr atrás, horas intermináveis de pesquisa, uma batelada de textos, livros, anuários, compêndios, trabalho desde 0 3º período, e pra quê, me diga? As coisas simplesmente não funcionam, é assim.
O tempo de faculdade prometia, com o estágio bacana que se tornou contrato antes mesmo da formatura. Ambiente que era quase minha casa, chefes que eram meus mestres, sem deixar de serem chefes, remuneração compatível com o meu momento. Fiz projetos ótimos, escrevi livro, editei revista, conheci pessoas que admirava, aprendi muito. Mas deu-se que mudou o governo, veio a dança das cadeiras e... pronto. Todo mundo fora. Eu junto.
Vieram logo outros dois trabalhos, ambos públicos, suscetíveis às vicissitudes de sempre. No primeiro, um chefe de caráter duvidoso e uma conjunção política contrária e lá estava eu, mais uma vez fora. No segundo, nem cargo tinha - uma confusão total e completa. Depois de atrasos no pagamento, situação totalmente irregular, gente nomeada pra cargo de direção que nem sabia o que estava fazendo ali e, claro, a sensação de que estava permitindo a um tempo valioso da minha vida passar em vão por um trabalho que se extinguiria tão logo se extinguisse o governo, quem jogou a toalha fui eu. Fui estudar de novo, preparar meu projeto de reingresso no universo acadêmico. Nos meses de penúria pós-aprovação no mestrado e pré-concessão de bolsa, achei que tinha dado um péssimo passo. Besteira. Pouco tempo depois, a velha roda-viva da política passou e levou todo mundo pra bem longe daquele gabinete kafkiano, sob duríssimas acusações de corrupção e investigação do Ministério Público. Estivesse eu lá, hoje estava respondendo a inquérito administrativo. Bendito espírito de juventude...
Desde então, nunca mais voltei a trabalhar num escritório ou coisa que o valha. A bolsa mixa de mestrado me permitiu uma vidinha de estudante como antes eu ainda não havia conhecido e, confesso, isso me fez um bem mais que grande. Poder simplesmente desenvolver o conhecimento, assistir aulas, definir os rumos da pesquisa, apresentar comunicações, levar a outras paragens os resultados da minha investigação foi o maior prazer profissional que jamais sentira. Felicidade. Apesar de alguns percalços, tudo correu da melhor maneira possível: rendimento excelente e defesa de dissertação num clima de paz e passarinhos, com aprovação unânime no final.
Mas, até como o que é bom dura pouco, veio a seleção para a próxima etapa. Aqui, senhores, ainda não há o afastamento suficiente para contar com pormenores tudo o que houve, ou minha mais franca opinião sobre esse processo, mas adianto que não foi muito legal não. Ok, reclamando de barriga cheia: fui aprovada, estou dentro, ainda faço parte dessa tripulação. Mas a bolsa, famigerada bolsa, ainda mixa, mas um pouquinho mais gorda que aquela outra, tudo indica, não virá mesmo. E tome enviar currículo, fazer curso preparatório pra concurso público, esforços sem resultados concretos até agora. As provas, como todo mundo está careca de saber, estão cada vez mais disputadas. Sim, é questão de tempo, mas quanto? Dia desses, o coordenador de uma graduação fez mea culpa: "É, seu currículo é ótimo, mas não tenho como te contratar sem que você tenha experiência docente. Mas como você vai ter experiência docente, se ninguém te contratar por isso, né?" Um sábio.
Dentro de alguns dias, completarei um ano totalmente entregue às expensas paternas - o primeiro desde os 19 anos. A paciência foi-se escoando a conta-gotas; a perseverança, seja lá o que isso signifique, já dá claros sinais de esmorecimento. Estou cansada, burocratizada, fragilizada. Não sou senhora de planejar coisas, tomar decisões, estabelecer metas. Além dos conflitos internos, tão numerosos quanto os de um saco de gatos, ainda existe todo o ambiente externo, que parece querer te constranger o tempo inteiro. O ser humano não é necessariamente bom, sinto informar, e são poucos os que tem o mínimo de sensibilidade para perceber que não é divertido ter tempo de sobra, que você não escolheu a vagabundagem como um estilo de vida e, principalmente, que viajar a tiracolo dos teus pais não é sinônimo de diversão de graça, nem de que você pode se permitir pequenos luxos com freqüência. De dentro, as coisas são bem menos bonitas do que parecem.
Mas, como diz a minha mãe, há que se ter fé, pois sem ela nada somos. Enquanto houver vida, é tempo de tocar a bola. Quem sabe, dia desses, sai gol.
12.2.07
Ora,veja...
Deu-se que mais uma vez minhas ansiedades, frustrações e expectativas foram engolidas em volumes homéricos, e fizeram um belo estrago no meu sistema digestivo.
E aí, como se faz?
Trata-se do efeito, pra atenuar a dor física, e da causa, que tem origem na cuca.
Não farei aqui um longo tratado sobre as dores e delícias de ser filha única e nerd, depositária de todas as expectativas do mundo, ainda que silenciosas e discretas. Mas digo e repito: os maiores desafios da minha vida tiveram, têm e sempre terão menos a ver com os ímpetos de independência e sucesso do que com as permanências, a aceitação dos próprios limites, um nível de auto-conhecimento e compreensão que me permita optar pelo viver simples. Simples, não medíocre. Por favor, não confundamos alhos com bugalhos.
Entre tantas outras obviedades que sempre preciso reouvir e treouvir, hoje minha médica disse algo valioso: eu preciso de paz e organização pra viver bem. O caos não me interessa em nenhuma das suas formas, seja profissional, urbano ou pessoal. Fujo dele loucamente, tentando construir caminhos mais amenos. Tranqüilidade não é sinônimo de tédio; excessos são sinônimos de... gastrite.
O caso é mais ou menos esse. Vinte e seis anos, não me violento mais.
Este post pode denotar um profundo egotismo, e peço que não me levem a mal: escrever foi a forma mais confortável, desde sempre, que eu encontrei pra me expressar, e é para a escrita que canalizo a ansiedade, quando me falta o ar para falar, quando o nó na garganta é grande demais, quando simplesmente não consigo verbalizar o que sinto. E, como é o caso, aproveito pra dizer que amo aqueles que amo. Isso me vai melhor assim, publicado num blog promiscuamente público, mas dia desses ainda pego vocês de surpresa...
E aí, como se faz?
Trata-se do efeito, pra atenuar a dor física, e da causa, que tem origem na cuca.
Não farei aqui um longo tratado sobre as dores e delícias de ser filha única e nerd, depositária de todas as expectativas do mundo, ainda que silenciosas e discretas. Mas digo e repito: os maiores desafios da minha vida tiveram, têm e sempre terão menos a ver com os ímpetos de independência e sucesso do que com as permanências, a aceitação dos próprios limites, um nível de auto-conhecimento e compreensão que me permita optar pelo viver simples. Simples, não medíocre. Por favor, não confundamos alhos com bugalhos.
Entre tantas outras obviedades que sempre preciso reouvir e treouvir, hoje minha médica disse algo valioso: eu preciso de paz e organização pra viver bem. O caos não me interessa em nenhuma das suas formas, seja profissional, urbano ou pessoal. Fujo dele loucamente, tentando construir caminhos mais amenos. Tranqüilidade não é sinônimo de tédio; excessos são sinônimos de... gastrite.
O caso é mais ou menos esse. Vinte e seis anos, não me violento mais.
Este post pode denotar um profundo egotismo, e peço que não me levem a mal: escrever foi a forma mais confortável, desde sempre, que eu encontrei pra me expressar, e é para a escrita que canalizo a ansiedade, quando me falta o ar para falar, quando o nó na garganta é grande demais, quando simplesmente não consigo verbalizar o que sinto. E, como é o caso, aproveito pra dizer que amo aqueles que amo. Isso me vai melhor assim, publicado num blog promiscuamente público, mas dia desses ainda pego vocês de surpresa...
19.11.06
Expirando
Tenho umas raivas bobas, bobas
Raivas de mim
De sempre escolher o caminho mais longo
De ser teimosa de doer
Das pisadas na bola de inominável fealdade
Do orgulho e da soberba, vez por outra
Da minha presunção travestida de insegurança, ou insegurança travestida de presunção
Da vanidade de algumas noites em claro, com seus álcoois e tabacos
De perder a medida do amor e ser extravagante
Raiva de temer o futuro
E o presente
(O passado, nunca.)
Não saber organizar a vida
Não saber fazer dinheiro como deveria
Não dizer a coisa certa quando deveria
Falar demais
Silenciar agressivamente
Astigmatismo pra ler livros e perceber pessoas
(Limitações muitas)
Negligenciar afetos
Natureza de excessos - de companhia e de solidão
Humor azedo por motivos mesquinhos
Ir atender xingando telefone que berra
E ligações com mais de 8 minutos
Franja espetada de sal de mar
Mulata neurastênica do litoral
(E vou dormir, que já são horas.)
Raivas de mim
De sempre escolher o caminho mais longo
De ser teimosa de doer
Das pisadas na bola de inominável fealdade
Do orgulho e da soberba, vez por outra
Da minha presunção travestida de insegurança, ou insegurança travestida de presunção
Da vanidade de algumas noites em claro, com seus álcoois e tabacos
De perder a medida do amor e ser extravagante
Raiva de temer o futuro
E o presente
(O passado, nunca.)
Não saber organizar a vida
Não saber fazer dinheiro como deveria
Não dizer a coisa certa quando deveria
Falar demais
Silenciar agressivamente
Astigmatismo pra ler livros e perceber pessoas
(Limitações muitas)
Negligenciar afetos
Natureza de excessos - de companhia e de solidão
Humor azedo por motivos mesquinhos
Ir atender xingando telefone que berra
E ligações com mais de 8 minutos
Franja espetada de sal de mar
Mulata neurastênica do litoral
(E vou dormir, que já são horas.)
18.9.06
Olhos de gueixa
Eu tinha 14 anos quando estava na festa de aniversário de um amigo e o avô dele, muito docemente, me lançou um olhar curioso e disse: “Você tem olhos de gueixa.” Não me esqueço daquela cena. Na época, muito menina, não consegui entender o que ele quis dizer com aquilo. Atribuí o comentário aos meus olhinhos amendoados, e só.
Lugar comum dizer que gueixas são mulheres especiais. Doces e dedicadas, vivem para dar atenção aos homens, enfeitando os salões de chá com sua graça meticulosamente conquistada, tocando instrumentos, apresentando-se em espetáculos de dança e conversando sobre assuntos agradáveis. Dizer que sua atividade é um trabalho seria pouquíssimo justo. Ser gueixa, eu penso, é uma espécie de sacerdócio. Assim como os monges e as freiras, essas mulheres abdicam do casamento e da família nos moldes tradicionais para dedicarem-se exclusivamente ao cultivo da beleza, das artes e da delicadeza, que atraem as atenções do universo masculino.
Corriqueiramente, nós, do suposto alto da “civilização ocidental”, lançamos sobre as gueixas o olhar semelhante ao que dedicamos, em nossas esquinas, às prostitutas. Ledo engano: falamos de dois universos completamente diferentes. As relações de uma gueixa com seus clientes, na maioria das vezes, não engloba o ato sexual, embora ela tenha toda a liberdade para ter um amante, comumente chamado de danna. É ele que irá “patrocinar” a gueixa, contribuindo ao oki-ya a que ela pertence e à própria, que usará os recursos para os custos altos de sua profissão, entre eles o dos kimonos de seda, caríssimos. Se, da relação com o danna, nascer um filho, ele deverá arcar com os custos da criança, mas não com as demais responsabilidades paternas. É neste ponto que podemos vislumbrar melhor a riqueza deste universo essencialmente feminino: uma vez grávida, a torcida no oki-ya é para que, daquela gestação, nasça uma menina, que possa dar continuidade à linhagem de gueixas. Um menino certamente terá destino menos glamouroso, trabalhando em alguma função auxiliar no oki-ya.
Para essas moças à la personagem de seriado americano, gritar para os quatro cantos que é um absurdo ainda existirem no mundo mulheres que se “sujeitam” a viver uma vida inteira exclusivamente dedicada ao cultivo da beleza, das conversas amenas e da arte para os olhos masculinos é fácil, fácil. Difícil é voltar-se para o próprio umbigo e se dar conta de que não faz algo muito diferente disso. Quando eu era novinha, minha mãe assinava uma dessas revistas de moças adultas para eu ler. Não sei se ela se confundiu, pensando que era pra adolescente, ou se queria que eu visse o que me esperava fora de casa, quando fosse o momento de ir. Todos os meses, eu via os mesmos temas se repetirem: como conquistar um marido através da boa mesa, de uma romântica viagem, de belas músicas no CD Player, de um corpo perfeito, de sexo bem feito e das melhores roupas, cabelos e maquiagem. Na maior parte das vezes, o objetivo era implícito; noutras ele estava ali, subjacente. Até estar bem consigo mesma, através de shiatsu, terapia, yoga, orgasmos, massagem, tinha em última instância o objetivo de sentir-se melhor e – como não? – atrair o sexo oposto. Ah, quanta liberdade... não sabia que para isso foram esturricados tantos soutiens em praça pública.
Tive a sorte de nascer e crescer num lar nada machista. Ok: sorte por um lado, porque esse regime tem alguns efeitos colaterais, como os seus pais terem alguma dificuldade de entender algumas escolhas de “mocinha” que você eventualmente possa fazer. Mas nada de irremediável, devo dizer. Como nunca precisei brigar muito pela altura da saia, o tamanho do biquíni e o horário de chegar, acabei ficando suficientemente livre para admitir vestidos longos, maiôs e vontade de ficar em casa. Dia desses, por exemplo, perguntei para uma amiga se ela me acharia menos livre, caso eu me casasse com um muçulmano e passasse o resto da vida cobrindo o corpo e os cabelos. Ela não respondeu.
Sinceramente, não acredito haver problemas em querer agradar gratuitamente a quem se ama, contanto que isso não signifique uma auto-agressão, uma supressão de desejos e vontades. Fazer uma comidinha, baixar os olhos de pejo, ser delicada e atenciosa – oras, o que há de mal? Isso não faz de nenhuma mulher escrava de um homem. A escravidão vem de algo muito triste, que é a obrigação de enxergar-se menor perante o sexo oposto – coisa que uma gueixa, apesar de agradar e divertir, não faz mesmo. Qual a diferença entre os semanários para “jovens senhoras” dos anos 50, que aconselhavam as mulheres a não aporrinharem seus maridos quando eles chegassem do trabalho cansados e nervosos, e as revistas modernosas de hoje, que vivem a dar “100 dicas” para não deixar o namorado ir embora? Rigorosamente nenhuma.
Pois é: vai ver tenho mesmo olhos de gueixa...
Lugar comum dizer que gueixas são mulheres especiais. Doces e dedicadas, vivem para dar atenção aos homens, enfeitando os salões de chá com sua graça meticulosamente conquistada, tocando instrumentos, apresentando-se em espetáculos de dança e conversando sobre assuntos agradáveis. Dizer que sua atividade é um trabalho seria pouquíssimo justo. Ser gueixa, eu penso, é uma espécie de sacerdócio. Assim como os monges e as freiras, essas mulheres abdicam do casamento e da família nos moldes tradicionais para dedicarem-se exclusivamente ao cultivo da beleza, das artes e da delicadeza, que atraem as atenções do universo masculino.
Corriqueiramente, nós, do suposto alto da “civilização ocidental”, lançamos sobre as gueixas o olhar semelhante ao que dedicamos, em nossas esquinas, às prostitutas. Ledo engano: falamos de dois universos completamente diferentes. As relações de uma gueixa com seus clientes, na maioria das vezes, não engloba o ato sexual, embora ela tenha toda a liberdade para ter um amante, comumente chamado de danna. É ele que irá “patrocinar” a gueixa, contribuindo ao oki-ya a que ela pertence e à própria, que usará os recursos para os custos altos de sua profissão, entre eles o dos kimonos de seda, caríssimos. Se, da relação com o danna, nascer um filho, ele deverá arcar com os custos da criança, mas não com as demais responsabilidades paternas. É neste ponto que podemos vislumbrar melhor a riqueza deste universo essencialmente feminino: uma vez grávida, a torcida no oki-ya é para que, daquela gestação, nasça uma menina, que possa dar continuidade à linhagem de gueixas. Um menino certamente terá destino menos glamouroso, trabalhando em alguma função auxiliar no oki-ya.
Para essas moças à la personagem de seriado americano, gritar para os quatro cantos que é um absurdo ainda existirem no mundo mulheres que se “sujeitam” a viver uma vida inteira exclusivamente dedicada ao cultivo da beleza, das conversas amenas e da arte para os olhos masculinos é fácil, fácil. Difícil é voltar-se para o próprio umbigo e se dar conta de que não faz algo muito diferente disso. Quando eu era novinha, minha mãe assinava uma dessas revistas de moças adultas para eu ler. Não sei se ela se confundiu, pensando que era pra adolescente, ou se queria que eu visse o que me esperava fora de casa, quando fosse o momento de ir. Todos os meses, eu via os mesmos temas se repetirem: como conquistar um marido através da boa mesa, de uma romântica viagem, de belas músicas no CD Player, de um corpo perfeito, de sexo bem feito e das melhores roupas, cabelos e maquiagem. Na maior parte das vezes, o objetivo era implícito; noutras ele estava ali, subjacente. Até estar bem consigo mesma, através de shiatsu, terapia, yoga, orgasmos, massagem, tinha em última instância o objetivo de sentir-se melhor e – como não? – atrair o sexo oposto. Ah, quanta liberdade... não sabia que para isso foram esturricados tantos soutiens em praça pública.
Tive a sorte de nascer e crescer num lar nada machista. Ok: sorte por um lado, porque esse regime tem alguns efeitos colaterais, como os seus pais terem alguma dificuldade de entender algumas escolhas de “mocinha” que você eventualmente possa fazer. Mas nada de irremediável, devo dizer. Como nunca precisei brigar muito pela altura da saia, o tamanho do biquíni e o horário de chegar, acabei ficando suficientemente livre para admitir vestidos longos, maiôs e vontade de ficar em casa. Dia desses, por exemplo, perguntei para uma amiga se ela me acharia menos livre, caso eu me casasse com um muçulmano e passasse o resto da vida cobrindo o corpo e os cabelos. Ela não respondeu.
Sinceramente, não acredito haver problemas em querer agradar gratuitamente a quem se ama, contanto que isso não signifique uma auto-agressão, uma supressão de desejos e vontades. Fazer uma comidinha, baixar os olhos de pejo, ser delicada e atenciosa – oras, o que há de mal? Isso não faz de nenhuma mulher escrava de um homem. A escravidão vem de algo muito triste, que é a obrigação de enxergar-se menor perante o sexo oposto – coisa que uma gueixa, apesar de agradar e divertir, não faz mesmo. Qual a diferença entre os semanários para “jovens senhoras” dos anos 50, que aconselhavam as mulheres a não aporrinharem seus maridos quando eles chegassem do trabalho cansados e nervosos, e as revistas modernosas de hoje, que vivem a dar “100 dicas” para não deixar o namorado ir embora? Rigorosamente nenhuma.
Pois é: vai ver tenho mesmo olhos de gueixa...
4.8.06
De elevadores e aviões
O trauma: ficar presa sozinha entre o 30º e o 31º andar de um hotel em Miami (??!!), 10 anos, altas horas, gritando "HEEEEEELP ME", como se alguém naquela vila falasse inglês...
Quando eu era criança, tinha medo de elevador, mas adorava avião. É que eu andava mais de avião do que de elevador... morava em casa, tal e coisa. Na verdade, eu sempre vinha tensa no avião imaginando que ia chegar no Rio e entrar no elevador do Galeão primeiro, e depois no elevador do prédio da minha tia. O avião dando seus sacolejos de verão e eu só pensava nos elevadores, elevadores, elevadores me esperando.
O trauma: 10 horas ininterruptas num vôo infernal, pessoas se perguntando se iam morrer, vontade de fazer xixi, de comer, de beber água, adolescente pendurada na medalha de Nossa Senhora de Fátima e engastada no braço do pai.
Depois que eu fiquei velha, vim morar em prédio e deixei de notar a presença do elevador. Entro e saio dele pra chegar em casa, pra ir ao médico, ao advogado, à aula (quem conhece a Uerj sabe o que isso significa em termos de macheza). Mas avião virou problema. Hoje uso menos. Já andei até fazendo umas viagens malucas de ônibus pra sair pela tangente.
Conclusão: nada é mais patético do que ter medo de avião ou de elevador. Nada é mais engraçado do que observar o desespero das pessoas que têm medo de avião ou de elevador. Nada é mais irritante do que gente que menospreza o medo que alguns têm de avião ou de elevador. Ah, cuidem das suas vidas!
Quando eu era criança, tinha medo de elevador, mas adorava avião. É que eu andava mais de avião do que de elevador... morava em casa, tal e coisa. Na verdade, eu sempre vinha tensa no avião imaginando que ia chegar no Rio e entrar no elevador do Galeão primeiro, e depois no elevador do prédio da minha tia. O avião dando seus sacolejos de verão e eu só pensava nos elevadores, elevadores, elevadores me esperando.
O trauma: 10 horas ininterruptas num vôo infernal, pessoas se perguntando se iam morrer, vontade de fazer xixi, de comer, de beber água, adolescente pendurada na medalha de Nossa Senhora de Fátima e engastada no braço do pai.
Depois que eu fiquei velha, vim morar em prédio e deixei de notar a presença do elevador. Entro e saio dele pra chegar em casa, pra ir ao médico, ao advogado, à aula (quem conhece a Uerj sabe o que isso significa em termos de macheza). Mas avião virou problema. Hoje uso menos. Já andei até fazendo umas viagens malucas de ônibus pra sair pela tangente.
Conclusão: nada é mais patético do que ter medo de avião ou de elevador. Nada é mais engraçado do que observar o desespero das pessoas que têm medo de avião ou de elevador. Nada é mais irritante do que gente que menospreza o medo que alguns têm de avião ou de elevador. Ah, cuidem das suas vidas!
27.7.06
Réquiem para um amor
Sempre se sentira encantada pelos olhos dele. Eram miúdos, muito escuros, de brilho infantil. Olhos curiosos de quem muito queria ver; olhos de quem tencionava, a cada encontro, assoalhar por eles a alma. Alma... a alma que, talvez por inocência, ele imaginava ser descortinada pelos olhos dela.
Os olhos dela. Duas amêndoas bem feitas, matiz de mel silvestre. Desconcertantes. Hábeis em extrair verdades, e por vezes fugidios, distantes. Diziam do outro, mas quase tudo escamoteavam de si.
E foram lado a lado aqueles pares de olhos, anos a fio, entrando e saindo por vielas escuras, sorvendo manhãs nubladas, vendo amanheceres azuis tomados em empréstimo e pores-do-sol que sim, eram seus. Se sozinhos nada viam, juntos eram fanais.
Tanto aprenderam de amor, tanto se desencontraram, e ainda continuavam olhos dos olhos. Girava mundo, tanto se via, contudo eram quatro, eram dois, eram um só. Talvez assim fosse até a eternidade.
Mas a vida tem lá seus bruxedos. Num dia tolo, bestialmente ordinário, por alguns instantes detiveram-se num olhar, como muitas vezes fizeram antes. Algo diferente aconteceu, causando estremecimento. Não havia mais laivo de mistério – tudo estava posto. Os olhos dele nem eram tão infantis assim, pensou ela. E os olhos dela, agora ele via, escondiam muito pouco. Finalmente se enxergaram.
Tempos depois – meses, anos, não importa – ia ela pela rua, quando o viu sentado num banco de praça. Tão bem passara desde o desfecho, que sentia seu orgulho firmemente a salvo. Podia ser curiosa. Parou à sua frente e o olhou nos olhos. Um segundo. Dois segundos. Três segundos. Quatro segundos. A crença virou certeza: estavam vazios um do outro. Antes que ele pudesse falar, sorriu sem amargura, deu as costas e seguiu o caminho que era seu.
Os olhos dela. Duas amêndoas bem feitas, matiz de mel silvestre. Desconcertantes. Hábeis em extrair verdades, e por vezes fugidios, distantes. Diziam do outro, mas quase tudo escamoteavam de si.
E foram lado a lado aqueles pares de olhos, anos a fio, entrando e saindo por vielas escuras, sorvendo manhãs nubladas, vendo amanheceres azuis tomados em empréstimo e pores-do-sol que sim, eram seus. Se sozinhos nada viam, juntos eram fanais.
Tanto aprenderam de amor, tanto se desencontraram, e ainda continuavam olhos dos olhos. Girava mundo, tanto se via, contudo eram quatro, eram dois, eram um só. Talvez assim fosse até a eternidade.
Mas a vida tem lá seus bruxedos. Num dia tolo, bestialmente ordinário, por alguns instantes detiveram-se num olhar, como muitas vezes fizeram antes. Algo diferente aconteceu, causando estremecimento. Não havia mais laivo de mistério – tudo estava posto. Os olhos dele nem eram tão infantis assim, pensou ela. E os olhos dela, agora ele via, escondiam muito pouco. Finalmente se enxergaram.
Tempos depois – meses, anos, não importa – ia ela pela rua, quando o viu sentado num banco de praça. Tão bem passara desde o desfecho, que sentia seu orgulho firmemente a salvo. Podia ser curiosa. Parou à sua frente e o olhou nos olhos. Um segundo. Dois segundos. Três segundos. Quatro segundos. A crença virou certeza: estavam vazios um do outro. Antes que ele pudesse falar, sorriu sem amargura, deu as costas e seguiu o caminho que era seu.
11.7.06
Desculpem: não sou perfeita
Acontece que a menina cresce boa aluna, matreira, e pretensiosamente madurinha.
Aí, todo mundo cria expectativa.
Vai ser executiva de multinacional.
Vai ser juíza.
Vai ser independente.
Bacaníssima, seriíssima.
Mas o tempo passa...
E a moça quer uma coisa.
Depois, quer outra.
Não quer ser executiva de multinacional.
Não quer ser juíza.
Todavia é independente - quase sempre.
Tem muitas dúvidas.
Apaixona-se, sofre, e é feliz.
Perde minutos preciosos dando trato aos cabelos e às sobrancelhas.
Sofre de excesso de poesia nas tardes de sol.
Distrai-se com passarinho na janela.
Bacaníssima? Talvez.
Seriíssima? Possivelmente.
Mas bem livre.
Segredo e transparência - juntos.
Peito aberto pra vida.
Aí, todo mundo cria expectativa.
Vai ser executiva de multinacional.
Vai ser juíza.
Vai ser independente.
Bacaníssima, seriíssima.
Mas o tempo passa...
E a moça quer uma coisa.
Depois, quer outra.
Não quer ser executiva de multinacional.
Não quer ser juíza.
Todavia é independente - quase sempre.
Tem muitas dúvidas.
Apaixona-se, sofre, e é feliz.
Ama bandidamente o trabalho que faz.
Franze o cenho, escreve demais, ri de si mesma.Perde minutos preciosos dando trato aos cabelos e às sobrancelhas.
Sofre de excesso de poesia nas tardes de sol.
Distrai-se com passarinho na janela.
Bacaníssima? Talvez.
Seriíssima? Possivelmente.
Mas bem livre.
Segredo e transparência - juntos.
Peito aberto pra vida.
4.7.06
A volta da mulher morena
O cansaço é grande (estou estudando, e como, e todos os dias), minha defesa vem aí (serei mestra – que simpático!), mas não quero perder o hábito de manter o meu bloguinho em pleno funcionamento. Como o caso é sério, mas não há risco de morte, deixo vocês com alguém de minha inteira confiança: Vinícius de Moraes.
A volta da mulher morena
Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de tuas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a campina matinal
Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem as pernas da mulher morena
Reza para a velhice roer dentro da mulher morena
Que a mulher morena está encurvando os meus ombros
E está trazendo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus últimos cantos
Dai morte cruel à mulher morena!
Rio de Janeiro, 1935
A volta da mulher morena
Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de tuas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a campina matinal
Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem as pernas da mulher morena
Reza para a velhice roer dentro da mulher morena
Que a mulher morena está encurvando os meus ombros
E está trazendo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus últimos cantos
Dai morte cruel à mulher morena!
Rio de Janeiro, 1935
29.6.06
Meu pai, esse homem
Dilemas freudianos à parte, esse post é sobre o meu pai.
De uns tempos pra cá, há quem me dê a impressão de que uma moça amar o próprio pai, e dizer isso aos quatro ventos, é algo meio esquisito. Não entendo. Peço licença, pois, para dizer o quanto gosto do meu, tão lindo e tão doce, na semana em que completou 51 aninhos.
Ele queria muito uma menina. Quando nasci, ficou quase louco de felicidade: subiu a rua da minha vó chorando tanto que ela até se assustou. Engraçado: tanto homem sonhando com um garotão pra levar domingo ao Maracanã, e logo ele, mal-encerrada a carreira no futebol profissional, preferia uma menina. Não sei se imaginava caminho tão diverso; saí tricolor (ele é botafoguense) e inábil até pra jogar peteca.
Embora sejamos muito, mas muito diferentes, a nossa cumplicidade começou a ser construída bem cedo. De manhã, minha mãe no trabalho, ele em casa, ficávamos sós, os dois. Era uma farra. Ele colocava Simon e Garfunkel, black music e MPB sempre no volume máximo – e eu adorava. Organizado, arrumava a comidinha, escovava meus dentes, vestia meu uniforme, penteava e prendia meus cabelos curtinhos do jeito que eu queria, e lá estava comigo, pontualmente às 12:15, esperando o ônibus da escola na esquina. Dia de natação era mais confuso, porém engraçado. Mães prestimosas, com pena daquele pobre rapaz que era obrigado a entrar no vestiário infantil pra cuidar da filha (?!), se ofereciam pra me dar banho. Educadamente, ele declinava. Depois perguntam por que tantos homens são machistas...
Os anos foram passando, a rotina mudou radicalmente sei lá quantas vezes, mas o nosso elo não se desfez. Claro que a relação passou por crises, algumas bem feias, e não foram poucas as vezes em que pensei na possibilidade de sumir, desaparecer, nunca mais falar com ele, essas coisas. Trocamos farpas, discutimos aos berros. Magoada, cheguei a dizer que ele me decepcionou. Bobagem. Só tinha percebido que pai não é super-homem, e também pode ter fraquezas, ser egoísta, cometer erros. Quanto melhor.
Nunca vi problemas em falar do meu pai, até que a descrição do meu lanchinho do colégio (sanduichinhos de biscoitinhos salgadinhos Piraquê, aqueles quadradinhos, minuciosamente recheados com manteiga ou requeijão) causou forte comoção numa alma desconcertada. Fui seriamente aconselhada a não falar tais coisas para um homem com quem pretendesse ter filhos, porque ele ficaria apreensivo por saber que dificilmente seria um pai como o meu. Será que eu tinha extrapolado? Claro que não. Cada um tem lá seu jeito de ser pai. Tem aqueles que pouco vêem os filhos, mas conseguem conquistá-los a cada encontro; tem os brincalhões, que se embolam com as crianças como se fossem uma delas; tem os excessivamente sisudos, mas precisos nos momentos críticos. Enfim, o problema ronda a cabeça dos outros. Esse pique, definitivamente, não está comigo.
Claro que existem pais e pais, assim como nem todas as mães são anjos de candura. Mas, vem cá, o que há de errado em amá-los incondicionalmente? Não falo de orgulho na linha “Tradição, Família e Propriedade”, e sequer me refiro a uma figura fantasticamente idealizada. Falo de amor. Só isso. Ou tudo isso.
De uns tempos pra cá, há quem me dê a impressão de que uma moça amar o próprio pai, e dizer isso aos quatro ventos, é algo meio esquisito. Não entendo. Peço licença, pois, para dizer o quanto gosto do meu, tão lindo e tão doce, na semana em que completou 51 aninhos.
Ele queria muito uma menina. Quando nasci, ficou quase louco de felicidade: subiu a rua da minha vó chorando tanto que ela até se assustou. Engraçado: tanto homem sonhando com um garotão pra levar domingo ao Maracanã, e logo ele, mal-encerrada a carreira no futebol profissional, preferia uma menina. Não sei se imaginava caminho tão diverso; saí tricolor (ele é botafoguense) e inábil até pra jogar peteca.
Embora sejamos muito, mas muito diferentes, a nossa cumplicidade começou a ser construída bem cedo. De manhã, minha mãe no trabalho, ele em casa, ficávamos sós, os dois. Era uma farra. Ele colocava Simon e Garfunkel, black music e MPB sempre no volume máximo – e eu adorava. Organizado, arrumava a comidinha, escovava meus dentes, vestia meu uniforme, penteava e prendia meus cabelos curtinhos do jeito que eu queria, e lá estava comigo, pontualmente às 12:15, esperando o ônibus da escola na esquina. Dia de natação era mais confuso, porém engraçado. Mães prestimosas, com pena daquele pobre rapaz que era obrigado a entrar no vestiário infantil pra cuidar da filha (?!), se ofereciam pra me dar banho. Educadamente, ele declinava. Depois perguntam por que tantos homens são machistas...
Os anos foram passando, a rotina mudou radicalmente sei lá quantas vezes, mas o nosso elo não se desfez. Claro que a relação passou por crises, algumas bem feias, e não foram poucas as vezes em que pensei na possibilidade de sumir, desaparecer, nunca mais falar com ele, essas coisas. Trocamos farpas, discutimos aos berros. Magoada, cheguei a dizer que ele me decepcionou. Bobagem. Só tinha percebido que pai não é super-homem, e também pode ter fraquezas, ser egoísta, cometer erros. Quanto melhor.
Nunca vi problemas em falar do meu pai, até que a descrição do meu lanchinho do colégio (sanduichinhos de biscoitinhos salgadinhos Piraquê, aqueles quadradinhos, minuciosamente recheados com manteiga ou requeijão) causou forte comoção numa alma desconcertada. Fui seriamente aconselhada a não falar tais coisas para um homem com quem pretendesse ter filhos, porque ele ficaria apreensivo por saber que dificilmente seria um pai como o meu. Será que eu tinha extrapolado? Claro que não. Cada um tem lá seu jeito de ser pai. Tem aqueles que pouco vêem os filhos, mas conseguem conquistá-los a cada encontro; tem os brincalhões, que se embolam com as crianças como se fossem uma delas; tem os excessivamente sisudos, mas precisos nos momentos críticos. Enfim, o problema ronda a cabeça dos outros. Esse pique, definitivamente, não está comigo.
Claro que existem pais e pais, assim como nem todas as mães são anjos de candura. Mas, vem cá, o que há de errado em amá-los incondicionalmente? Não falo de orgulho na linha “Tradição, Família e Propriedade”, e sequer me refiro a uma figura fantasticamente idealizada. Falo de amor. Só isso. Ou tudo isso.
24.6.06
As voltas que o mundo dá...
Essa semana, recebi uma proposta de emprego que, bem comparando, foi algo como jogar um fio desencapado para içar alguém que caiu num poço. Teria de me mudar de mala e cuia do Rio para o último lugar na esfera terrestre onde deveria pensar em viver para trabalhar em algo que não amo e ganhar um salário mediano.
Vocês devem estar se perguntando: ok, se era tão ruim, por que falar disso agora? Simples: porque eu sou uma kamikaze emocional. Não posso ver o abismo ali, pertinho, pertinho, que a tentação de me jogar cresce e por pouco não me engole. Além disso, minha alma nômade faz borboletas esvoaçarem pelo abdômen toda vez que ouço a palavra "mudança". Quanto maior a distância, maior o número de borboletas.
Como nem eram tantos os quilômetros assim que separariam a vida nova da velha vida, e como essa nova vida correria o sério risco de ser bem velha nos aspectos mais modorrentos, resolvi declinar. Acho que esse foi o maior serviço que já prestei à minha sanidade física, mental, espiritual e, last but not least, profissional. Cá estou, quietinha.
Só um detalhe: gente cismada como eu, que não consegue ver a vida como um conjunto de acontecimentos aleatórios que nenhuma harmonia guardam entre si, não é capaz de passar por cima de um acontecimento desses sem alguma reflexão. O primeiro movimento é acreditar que o destino está soprando naquela direção, e o certo é simplesmente abandonar-se ao sabor das marés. Mas tudo muda quando, bem calcados os dois pés no chão, damos-nos conta de que está em xeque algo tão frágil, mas tão definitivamente imprescindível, quanto a mínima felicidade necessária para sobreviver. Talvez seja uma força maior pondo a prova nossa capacidade de resistir à mudança efêmera e de buscar a paz e a realização verdadeiras. Talvez seja o momento de fazer a escolha irreversível pela vocação para a alegria de viver. Maktub.
(P.S.: admirador secreto... isso não é coisa que se faça com a minha curiosidade infantil!)
Vocês devem estar se perguntando: ok, se era tão ruim, por que falar disso agora? Simples: porque eu sou uma kamikaze emocional. Não posso ver o abismo ali, pertinho, pertinho, que a tentação de me jogar cresce e por pouco não me engole. Além disso, minha alma nômade faz borboletas esvoaçarem pelo abdômen toda vez que ouço a palavra "mudança". Quanto maior a distância, maior o número de borboletas.
Como nem eram tantos os quilômetros assim que separariam a vida nova da velha vida, e como essa nova vida correria o sério risco de ser bem velha nos aspectos mais modorrentos, resolvi declinar. Acho que esse foi o maior serviço que já prestei à minha sanidade física, mental, espiritual e, last but not least, profissional. Cá estou, quietinha.
Só um detalhe: gente cismada como eu, que não consegue ver a vida como um conjunto de acontecimentos aleatórios que nenhuma harmonia guardam entre si, não é capaz de passar por cima de um acontecimento desses sem alguma reflexão. O primeiro movimento é acreditar que o destino está soprando naquela direção, e o certo é simplesmente abandonar-se ao sabor das marés. Mas tudo muda quando, bem calcados os dois pés no chão, damos-nos conta de que está em xeque algo tão frágil, mas tão definitivamente imprescindível, quanto a mínima felicidade necessária para sobreviver. Talvez seja uma força maior pondo a prova nossa capacidade de resistir à mudança efêmera e de buscar a paz e a realização verdadeiras. Talvez seja o momento de fazer a escolha irreversível pela vocação para a alegria de viver. Maktub.
(P.S.: admirador secreto... isso não é coisa que se faça com a minha curiosidade infantil!)
19.6.06
Hoje já é amanhã
Lá vou eu cair em lugar-comum, mas azeite: tem situações na vida que fazem a gente mudar mesmo, e sempre acontecem tão rápido, mas tão rápido, que quando reparamos, já foi, já era, acordamos diferentes.
Pessoas queridas andam precisando de mim, e estou sendo prestimosa. Nos últimos quinze dias já fiz mais panelas de arroz (sempre soltinho) do que em toda a minha vida, organizei horários, pus adolescente pra estudar e dormir, preparei lanche, almoço e jantar, ajudei doente a se calçar e se vestir, etc. Virei temporariamente uma faz-tudo, mas nada que me mate ou me tire do prumo. Se ando preguiçosa pra algumas coisas, como sentar e estudar, tem algumas outras, sempre complicadas pra mim, que estou tocando com uma tranqüilidade incrível. É aquela velha história: uns probleminhas reais na hora certa servem pra dar o estalo de que pode se estar valorizando frivolidades.
Besteira o que escrevi. Nada a ver com frivolidade.
Encarar certos acontecimentos de modo natural não quer dizer que eles sejam tolices. É só uma maneira mais saudável de partir pra recuperação, não ser sucumbido pela tristeza, desfrutar o momento, ou simplesmente viver mais feliz. Fútil não é o fato, mas sim a dimensão que damos a ele... a tentação de encarnar personagem de samba canção é grande, e como.
Meia-noite e meia de segunda-feira. Hoje já é amanhã, e amanhã é o dia internacional da nova vida, do começar de novo, das promessas renovadas. Eu tenho cá uma bolsinha cheia delas...
Pessoas queridas andam precisando de mim, e estou sendo prestimosa. Nos últimos quinze dias já fiz mais panelas de arroz (sempre soltinho) do que em toda a minha vida, organizei horários, pus adolescente pra estudar e dormir, preparei lanche, almoço e jantar, ajudei doente a se calçar e se vestir, etc. Virei temporariamente uma faz-tudo, mas nada que me mate ou me tire do prumo. Se ando preguiçosa pra algumas coisas, como sentar e estudar, tem algumas outras, sempre complicadas pra mim, que estou tocando com uma tranqüilidade incrível. É aquela velha história: uns probleminhas reais na hora certa servem pra dar o estalo de que pode se estar valorizando frivolidades.
Besteira o que escrevi. Nada a ver com frivolidade.
Encarar certos acontecimentos de modo natural não quer dizer que eles sejam tolices. É só uma maneira mais saudável de partir pra recuperação, não ser sucumbido pela tristeza, desfrutar o momento, ou simplesmente viver mais feliz. Fútil não é o fato, mas sim a dimensão que damos a ele... a tentação de encarnar personagem de samba canção é grande, e como.
Meia-noite e meia de segunda-feira. Hoje já é amanhã, e amanhã é o dia internacional da nova vida, do começar de novo, das promessas renovadas. Eu tenho cá uma bolsinha cheia delas...
18.6.06
Do afastamento, da perda, do amor, eu mesma.
No dia em que nasci, mataram uma secretária da OAB num atentado terrorista. Chovia muito no Rio de Janeiro, o trânsito complicou e nosso Fusquinha ficou preso no Rebouças. Quase que atrasa a cesariana. Um ano e pouco antes, noutro dia de chuva e engarrafamento, teve gente que não conseguiu chegar a tempo no casamento dos meus pais. No final das contas, deu tudo certo.
Daí que acredito em destino. Acho que já chegamos aqui com tudo mais ou menos acertado, a historinha pronta, e um pouco – só um pouco – de livre arbítrio. E é por isso que não tenho muito medo de me jogar, de pisar na bola, de voltar atrás, de errar o mesmo erro mil vezes.
Com sete anos tive os primeiros baques afetivos, do afastamento e da perda, e deu-se que cresci em algumas cidades, sempre muito sabida e um bocado melancólica. Às vezes, justifico todo o meu desembaraço de morar só porque vivo assim desde cedo, filha única, sem parentes por perto, pais saindo bem cedo e chegando bem tarde. No tempo enorme que tive comigo mesma, aprendi algumas coisas valiosas, como ouvir música boa e ler de tudo que entrava pela porta de casa, e outras, péssimas: ver mais televisão do que devia, fazer experiências com velas e fósforos quando faltava luz, passar horas e horas no mais perfeito ócio e pensar demais em mim.
A quem interessar possa, tirando a pirotecnia, todo o resto permanece.
Embora haja controvérsias, eu já tive 15, 18 e 20 anos. Vivi os três momentos lá do meu jeito, meio atrapalhado, um pouco perturbado, mas vivi sim, e de teimosa que sou, fui feliz. Claro que faltou uma ou outra coisa; nada que seja irremediável.
Já desejei mal a quem me feriu, já amei tanto que quase explodi, já freqüentei academia regularmente, já despertei paixões de onde menos se imagina, já fui muito e nada religiosa e, até onde me lembro, já contei algumas mentiras. (Algumas? Mentira.)
Virginiana tranca-rua, ascendente criticamente em Capricórnio, é a minha lua em Peixes que segura a barra e me permite um relacionamento mais doce com aquilo que não é palpável. Confesso que a cada dia que passa gosto mais dessa lua, e a cada dia que passa gosto mais de ser exatamente assim: eu mesma.
Daí que acredito em destino. Acho que já chegamos aqui com tudo mais ou menos acertado, a historinha pronta, e um pouco – só um pouco – de livre arbítrio. E é por isso que não tenho muito medo de me jogar, de pisar na bola, de voltar atrás, de errar o mesmo erro mil vezes.
Com sete anos tive os primeiros baques afetivos, do afastamento e da perda, e deu-se que cresci em algumas cidades, sempre muito sabida e um bocado melancólica. Às vezes, justifico todo o meu desembaraço de morar só porque vivo assim desde cedo, filha única, sem parentes por perto, pais saindo bem cedo e chegando bem tarde. No tempo enorme que tive comigo mesma, aprendi algumas coisas valiosas, como ouvir música boa e ler de tudo que entrava pela porta de casa, e outras, péssimas: ver mais televisão do que devia, fazer experiências com velas e fósforos quando faltava luz, passar horas e horas no mais perfeito ócio e pensar demais em mim.
A quem interessar possa, tirando a pirotecnia, todo o resto permanece.
Embora haja controvérsias, eu já tive 15, 18 e 20 anos. Vivi os três momentos lá do meu jeito, meio atrapalhado, um pouco perturbado, mas vivi sim, e de teimosa que sou, fui feliz. Claro que faltou uma ou outra coisa; nada que seja irremediável.
Já desejei mal a quem me feriu, já amei tanto que quase explodi, já freqüentei academia regularmente, já despertei paixões de onde menos se imagina, já fui muito e nada religiosa e, até onde me lembro, já contei algumas mentiras. (Algumas? Mentira.)
Virginiana tranca-rua, ascendente criticamente em Capricórnio, é a minha lua em Peixes que segura a barra e me permite um relacionamento mais doce com aquilo que não é palpável. Confesso que a cada dia que passa gosto mais dessa lua, e a cada dia que passa gosto mais de ser exatamente assim: eu mesma.
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